Ela

Hoje eu enfiei um elefante num fusquinha. Bom, foi essa a sensação que tive quando fui dormir. Passei o dia fazendo tudo ao mesmo tempo agora. Se tivesse feito cada coisa a seu tempo, teria levado uns quatro dias pra resolver tudo. Eu definitivamente preciso de uma faxineira. “Pra quê?! Eu já não te ajudo bastante??”, ele diz. Claro. Aspira o apartamento uma vez por mês. E leva só quatro horas pra fazer isso, com algumas pausas pra cervejinha. Eu não costumo reclamar mas ontem foi demais. Mentira, eu costumo reclamar. E sempre tenho razão. Sexta-feira é dia de casamento? Não é! Casamentos às sextas atrapalham a vida de todo mundo. Tudo começou às sete: café, lavar a louça, passar o vestido do casamento, arrumar o quarto, procurar o gato pelo apartamento, olhar pela janela pra ver se o gato se suicidou, atender o telefone e explicar pra ele que não vai dar pra buscar a dona Silvia no aeroporto, encontrar o gato dentro do guarda-roupa, banho, pagar a mulher da lavanderia com a nota de 50 estrategicamente deixada no balde de gelo (achei uma utilidade pra ele!), correr pro trabalho. Almoço, buscar a sogra no aeroporto. Final da tarde: salão (unha, cabelo e Caras), banho de novo, maquiagem, pegar a chave do carro no balde de gelo (a-ha!) e ainda chegar antes da noiva. Dançar muito ao som de Gloria Gaynor, Bee Gees e Earth Wind & Fire. Eu merecia todos aqueles copos de cerveja que me fizeram dormir como um anjo até o meio-dia. Quando acordei ao som do aspirador de pó.

Ele

Nos conhecemos numa festa há cinco anos. Aniversário da Marininha, acho. É. foi isso. Da Marininha. Eu abandonei o som por um momento para ir à cozinha reabastecer o balde de gelo. Foi o que bastou para alguém se atrever a interromper o João no meio da frase "Mas eu não sambo para copiar ninguém, eu sambo mesmo com vontade de sambar". Despejei o gelo de qualquer maneira no balde e voltei apressado para dizer ao engraçadinho que João Gilberto não deve ser interrompido nunca, que fazer isso seria como interromper o Sermão da Montanha ou pichar a Capela Sistina.
E era uma engraçadinha. Linda, linda. E tinha mesmo um nariz de quem se levanta no meio de uma festa para trocar a música sem pedir permissão a ninguém. Fiquei olhando de longe enquanto ela percorria a coleção de CDs com o indicador, franzindo as sobrancelhas. Tirou um CD, olhou para a capa. Abriu a caixa e começou a ler o encarte, como se estivesse trocando um CD qualquer na casa dela. Adorei isso. Resolveu por fim botar o CD pra tocar. Beck. Ôpa, pensei, assunto. Me aproximei como quem não quer nada. Não, na verdade me aproximei como quem está como responsável pela música da festa e tem seu território invadido. Mas acho que consegui disfarçar a indignação, e fui didático ao perguntar:
-- Você sabe quem foi a maior influência do Beck?
Ela não sabia. Expliquei a influência de João Gilberto. Expliquei porque o João é gênio, porque é deus, porque todos devemos rezar cinco vezes por dia voltados para Juazeiro. Ela parecia se divertir. Sou bom nisso, pensei. Mas ela quebrou o encanto.
-- Vai acabar precisando amputar as mãos desse jeito.
-- Então quando ele pisou no palco do Carnegie Hall... Perdão?
-- O balde. O balde de gelo. Você está segurando há horas, vai acabar tendo uma gangrena. É gangrena o nome?
-- É. Gangrena. Puxa, que cabeça a minha.
Isso acabou com meu papo. Fiquei muito sem jeito. Mas aí deu certo de algum jeito, porque horas depois estávamos na cama dela. E tudo foi acontecendo rápido, e após uns meses já morávamos juntos.
Cinco anos é muito tempo, eu sei, mas não é típico das mulheres lembrar esses detalhes? Pois então, mas ela não é uma mulher típica. Porque eu passei a semana inteira antes do Dia dos Namorados procurando um presente para ela e me lembrei da forma como nos conhecemos. Então resolvi comprar um balde de gelo só de brincadeira, pra gente rir bastante relembrando aquele dia, e depois levá-la para fazer compras e jantar, enfim, um dia perfeito para uma mulher. E sabem o que ela fez? Olhou para o balde de gelo (de prata!) com cara de "que é isso?", disse "obrigada", me deu um beijinho bem sem graça e pronto. E eu, pobre de mim, pensando que ao abrir o embrulho ela ia cair na gargalhada imediatamente e começar a falar em gangrena...
E agora que estou lembrando, nem foi a primeira vez que ela não entendeu o que deveria ser uma piada interna. Uma vez, acho que era aniversário de namoro, estávamos brincando de prever nosso futuro: Os filhos, as dores de cabeça, uma velhice pacata e assexuada. Foi então que me lembrei de um índio velho que vendia poções, garrafadas e outras coisas assim no centro da cidade. Saindo do trabalho no dia seguinte, passei por lá e perguntei o que ele tinha ali para aumentar o desejo sexual. Ele remexeu no fundo de uma sacola e me deu uma espécie de móbile feito de conchas. Explicou que as conchas simbolizavam a vagina lá pros caras da tribo dele, e o casal que mantivesse aquele móbile na janela do quarto teria uma vida sexual ativa para o resto da vida. Cheguei em casa, contei toda a história do índio e esperei pela risada. Em vez disso, me perguntou:
-- Ah, é coisa de candomblé?
-- Que candomblé! Por acaso candomblé é religião de índio?
-- Hum... Qual que é?
-- Qual que é o quê?
-- A religião dos índios? -- Tudo isso olhando pro móbile do índio velho como se fosse uma barata cascuda.
-- Sei lá da religião dos índios! O ponto aqui é que as conchas representam... Ah, me dá isso aqui. Esquece.
Às vezes eu não sei o que ainda estou fazendo com essa mulher. Deve ser o nariz dela.

Ela

Eu não acredito! Nós nos conhecemos há cinco anos e ele nunca me deu um presente decente. Tá, uma vez ele trouxe uma blusa linda. Meu número, minha cor favorita e acompanhada por um buquê de flores. Tudo perfeito. Dois dias depois ele deixou escapar que minha irmã tinha comprado tudo... Nada romântico, mas eles deviam ter feito isso mais vezes. No nosso terceiro aniversário de namoro, ele apareceu em casa com um móbile de conchas. Um horror! Nem Iemanjá enfeitaria a sala com aquilo. E aquele cd do João Gilberto que ele comprou pela internet... “Você não vai acreditar no presente que eu vou te dar!” . Quatro dias de suspense: 12, 13, 14 e 15 de junho... Era o último cd do João que faltava lá em casa. Pra completar a coleção DELE!!! Ok, eu confesso: o cd é ótimo. Aliás, foi por culpa do João que a gente se conheceu. Foi na festa de aniversário da Marininha. Lá pelas 3 da manhã eu resolvi que cinco horas e meia de bossa nova era suficiente pra me transformar no próprio barquinho a deslizar, no macio azul do mar. (Ele odeia quando eu faço essa simplificação absurda, e é justamente por isso que eu faço). Resumindo, eu troquei João Gilberto por Beck, com a devida permissão da Marininha, é claro, e o sr. Eu-amo-joão-gilberto-mais-que-tudo-nessa-vida veio se apresentar. “Você sabe quem foi a maior influência de Beck?” foi como a conversa começou. Como ela terminou? Na manhã seguinte, quando ele saiu do meu quarto dizendo: “Eu te ligo mais tarde”. Oito meses depois a gente já estava morando junto. E desde então eu venho ganhando presentes cada vez mais inesperados. Mas dessa vez ele se superou. Eu só quero saber porque foi que eu ganhei um balde de gelo... E eu nem bebo uísque!