28.12.04

O prazo de validade da minha raiva venceu no momento em que vi aquela cena na TV. Uma linda história de amor que me fez chorar muito e pensar no sentido da vida. O protagonista era uma inocente criança que, ao tentar superar um importante desafio, passa por um grave acidente e recebe todo o apoio que só sua mãe poderia dar. A pessoa que mais o ama e que vai protegê-lo para o resto de sua vida. Como é possível emocionar tanto em apenas trinta segundos? Os publicitários são pessoas iluminadas e um comercial de anti-séptico, mostrando um menino que cai da bicicleta e recebe os primeiros-socorros de sua zelosa mãe, mudou a minha vida.
Bem, pensando agora, com a cabeça mais fria, eu acho que a gravidez tem mexido um pouco comigo. O garoto nem ficou tão machucado, não precisou de pontos nem nada, só duas borrifadas do tal produto num minúsculo arranhão no joelho... Mas o importante é que tudo acabou bem, assim como deveria terminar o castigo do meu namorado. O pai do meu filho. O homem da minha vida, que tanto me ama, com quem eu vou passar o resto dos meus dias e... Santo Deus! Eu preciso parar de chorar a cada duas horas ou vou acabar desidratada.
"Concordo. Já tá na hora de acabar com essa briguinha. Mas não custa nada dar um gran finale pra punição que, convenhamos, ele mereceu". A minha irmã sempre foi tão apaziguadora... A primeira providência foi ligar para a mãe dele e dar a notícia da gravidez. Ela não pareceu tão entusiasmada quanto minha mãe, mas ficou encarregada de espalhar a novidade para a família do meu namorado antes que ele o faça antes de mim. De novo.
Sentei no sofá em frente àquelas bolachas reprodutoras de chiados e comecei a planejar a vingança. "Tenho que tocar no ponto fraco dele". E fez-se a luz. Foi cansativo trocar todos os discos de suas respectivas capas, mas eu posso dizer que foi também uma agradável e produtiva tarde de trabalho. Em determinado momento, pensei que pudesse estar cometendo um ato extremo de maldade, mas foram apenas dois segundos e meio de reflexão. Meu namorado passou algumas horas desfazendo a confusão, o que me deu tempo de ler vários contos eróticos para apagar de vez a mágoa causada naquela noite no jantar.
O resto da semana foi maravilhoso. Fomos ao cinema feito dois namoradinhos adolescentes, jantamos na casa da Solange ontem e lá surgiu a idéia de passarmos o fim de semana em Ilhabela. O Jair e a Solange já nos chamaram várias vezes para conhecer uma pousada, acho que de um primo do ex-chefe do Jair - ou ex-chefe do primo, não lembro direito - e nós finalmente resolvemos aceitar o convite. Eu tenho algumas recordações de Ilhabela, onde passei uma semana durante a minha infância. Ou melhor, duas recordações: uma boa e outra ruim. Uma coruja entrou pela janela da sala enquanto assistíamos à novela, deixando em pânico as mulheres da família. E trezentas dúzias de borrachudos nos atacavam todo final de tarde, o que faz da primeira a boa recordação da viagem.

27.5.04

Às vezes parece que o Diabo fica entediado lá no inferno e vem até a Terra para se divertir às nossas custas. Foi o que aconteceu há três dias, quando resolvemos reunir a família da minha namorada para contar sobre a gravidez. O resultado da confusão toda: um cunhado de tapa-olho e uma mulher grávida me tratando da forma mais fria possível durante dois dias. Não tive culpa do que aconteceu com o olho do Edu, foi só mais uma conseqüência da falta de jeito do meu sogro. Quanto a essa mulher que anda pelo apartamento sem falar comigo, bem, acho que eu mereço. Não que a coisa tenha acontecido da forma como ela pensa que aconteceu. O negócio é que ela se levantou para ir ao banheiro e eu fiquei distribuindo as taças. Minha sogra perguntou a que se devia toda aquela cerimônia. Eu falei que não era nada, que assim que ela voltasse do banheiro contaria para todos. E foi aí que o Diabo entrou na história:
– E depois deve voltar pro banheiro de novo. Sabe como é mulher grávida.
Falei sem perceber. Sabe quando você acha que só pensou uma coisa, olha em volta e descobre que na verdade fez um comentário em voz alta? Pois então, foi o que aconteceu. Fez-se o silêncio na sala. Quebrado pelo meu sogro:
– ELA TÁ GRÁVIDA???
Lá do banheiro minha namorada pensou que fosse a minha voz anunciando a gravidez. Como se eu fosse mesmo capaz de fazer algo assim, gritar para todo mundo a notícia que deveria ser divulgada por ela. Enfim, estava formada a confusão. Ela veio do banheiro feito um míssil, o olhar de ódio cravado em mim. Eu – que tentava me desvencilhar de minha sogra, então dependurada no meu pescoço – corri para abraçar minha namorada. Eu sabia que ia apanhar, no mínimo. Foi aí que Satanás, talvez arrependido do que acabara de fazer comigo, resolveu interferir novamente: meu sogro foi estourar o champanhe, a rolha voou e foi bater no olho do Edu. As atenções se desviaram para ele. Até eu fingi alguma preocupação com o babaca do meu cunhado. Tudo para escapar da ira de uma mulher grávida. No entanto, quando os pais dela saíam para levar o filho ao hospital, ela deu um jeito de rosnar para mim:
– Você me paga por essa...
E aí começou o inferno. É horrível quando ela resolve não falar comigo, porque ela não fala mesmo. Nada de gestos, acenos, bilhetes, nada! É como se eu não existisse. Nas primeiras horas eu tentei pedir desculpas, contar minha versão da história, mas não adiantou. Então entrei no jogo. Agüentei durante dois dias, até ontem. Hoje de manhã eu saí para trabalhar já disposto a me reconciliar com ela de qualquer forma quando voltasse. Fui almoçar com o Jair, para ver se ele me dava alguma idéia de como fazê-lo.
– É, rapaz... – Ele disse – Situaçãozinha complicada, essa sua. Mas também, o que é que você tem na cabeça?
– O Diabo...
– Hein?
– Esquece, esquece! Eu sei lá por que fiz aquilo! O negócio é que quero desfazer e não sei como. Você vai me ajudar ou vai ficar aí me criticando?
– Quero te ajudar, você sabe. Mas é difícil, pô! Ela deve estar uma fera, não?
– Você não tem idéia.
– Hum. Que tal umas flores?
– Aí é que ela me expulsa de casa. Você acha que alguma mulher ainda cai nessa?
– É, é verdade... Esse negócio de fazer burrada e depois tentar agradar nunca dá certo.
– Pois é. E então?
– Eu sei lá!
– Você não sabe?
– Não.
– Grande amigo você é...
– OLHA A CAGADA QUE VOCÊ FEZ!
– Humpf.
Voltei do almoço ainda sem idéia do que fazer. No fim da tarde, saí do escritório desanimado com a perspectiva de encontrar uma mulher hostil. Cheguei em casa e tentei puxar assunto:
– Oi.
– ...
– Como você está?
– ...
– Sentiu enjôos hoje?
– ...
– Não vai falar comigo?
– ...
– Então tá. Vou ali ouvir uns discos, espero que você não se importe.
– ...
– Beleza.
Fui até a prateleira e peguei o LP que havia deixado separado para ouvir. The Piper At The Gates Of Dawn, primeiro disco do Pink Floyd. Puxei o bolachão de dentro da capa, botei no prato, posicionei a agulha e me recostei na poltrona. Só que, quando o disco começou a tocar, em vez de Astronomy Domine eu ouvi Sá Marina, do Wilson Simonal. Levantei-me sem entender nada. Olhei o selo do LP. Alegria, Alegria vol. 2. "Ué...", pensei. Procurei o disco do Simonal no meio da minha coleção. São mais de 500 LPs mais ou menos organizados por estilo e por nome do artista. Acontece que estavam todos fora de ordem. Demorou um pouco, mas acabei percebendo o que acontecia. Olhei para minha namorada e ela estava com um meio-sorriso no rosto.
– Você trocou a capa de uns LPs, aqui? É isso?
Ela fez que não com a cabeça. Bom, já era uma forma de comunicação.
– Você trocou a capa de TODOS?
Acenou que sim.
– E é essa sua vingança? Pffff, que coisa besta. Arrumo isso rapidinho.
– Boa sorte – ela disse. – eu vou dormir.
Ainda eram oito da noite, mas nem quis discutir. Ela tinha falado comigo, já era alguma coisa. Entreguei-me ao trabalho de colocar meus LPs de volta nas capas correspondentes e reorganizar tudo. Dentro da capa do Alegria, Alegria vol. 2 estava Samba Esquema Novo, do Jorge Ben. No lugar do disco do Jorge Ben, estava Let It Bleed, dos Rolling Stones. Uma zona. O obsessivo-compulsivo que há em mim queria gritar e sair correndo. Contive-o aos tapas, porém, e prossegui com o trabalho. Fui terminar já passava da uma da manhã. A última capa era de Krig-Ha Bandolo, do Raul Seixas. Coloquei o disco correto dentro dela e enfim encontrei o The Piper At The Gates Of Dawn. Junto com ele, um bilhete dela:
"Se ainda estiver inteiro depois desse trabalho todo, encontre-me no quarto. Precisamos fazer as pazes."

Fui até o quarto e a encontrei acordada e muito bem disposta. Foi uma noite e tanto. Minha namorada é bem amalucada, às vezes, mas sabe ser original quando quer.

11.4.04

Eu ensaiei aquele momento na frente do espelho durante três dias. Preparei discurso, mudei discurso, desisti de discurso. Fiz um belíssimo arranjo de flores para enfeitar a mesa do almoço. Gastei uma fortuna com comida pronta, vinhos e champanhe. Enfim, tudo preparado para contar a grande novidade. Seria o meu momento! O MEU momento!!
Na noite anterior ao almoço eu sonhei que era uma famosa estrela de cinema. Na verdade eu era a Rita Cadillac gravando Aluga-se Moças, mas no sonho eu tinha até camarim exclusivo e... enfim, eu era uma estrela. “Um presságio”, pensei.
Depois da sobremesa, as taças de campanhe seriam distribuídas e, diante da expressão de expectativa dos convidados, eu daria a notícia. Quando eu finalmente batesse no copo com a colherzinha (três vezes, como nos filmes) e fizesse o grande anúncio, todos iriam me abraçar e chorar e dizer que eu seria a melhor mãe do mundo.
Na hora certa, chamei meu namorado na cozinha. “Você distribui as taças enquanto eu vou fazer xixi”. “Pode deixar!”
Sentei no vaso sanitário e relaxei. Eu estava a poucos segundos da glória. Da sala, veio a frase que soou como um alarme de incêndio.
“Pra quê tudo isso?”, era a ansiedade da minha mãe detonando a bomba.
“É porque... porque... ELA TÁ GRÁVIDA!!!”
............
Meu mundo caiu.
Quando abri a porta do banheiro, a cena: meu pai chacoalhando a garrafa de champanhe e minha mãe agarrada ao pescoço do meu namorado, chorando. Quando me viu entrando na sala, ela veio em minha direção para me abraçar.
Nesse momento meu pai conseguiu estourar a champanhe. E como numa comédia dos Trapalhões, a rolha soltou-se da garrafa para ir direto para o olho do meu irmão.
“Tô cego!”. Minha mãe pegou a bolsa e declarou: “Vamos te levar pro hospital, meu filho, calma...”
Diante daquela confusão eu não sabia se socorria meu irmão, se chorava ou se dava uma surra no meu namorado. Deixei a primeira tarefa para os meus pais, que já se preparavam para sair. Chorar iria gastar as energias que eu decidi poupar para executar a minha vingança. O meu namorado me paga! Ah, ele me PAGA!

22.7.03

Panettone com maionese. PANETTONE COM MAIONESE! Eu mereço. E ainda se fosse só isso... O problema maior é que todas as mulheres parecem tirar do DNA um pacotão de conselhos assim que uma delas engravida. Como explicar, por exemplo, que a Marininha – que nunca sequer sonhou em ter filhos; nem irmãos tem – tenha se tornado de uma hora para outra a maior conselheira de gestação para minha namorada? E é cada conselho... As duas devoram as páginas de um livro, O Bebê na Era de Aquário. A Marininha tem verdadeira devoção pela autora, uma americana oxigenada de olhar aguado e sorriso enjoativo. E minha namorada embarcou nessa. Ciência? Ginecologia? Obstetrícia? Pré-Natal, Ultrassom? Para que tudo isso, se temos os astros para nos guiarem, não é mesmo? A depender da Marininha, saberemos o sexo do bebê de acordo com a fase da lua e o parto será feito por uma índia velha e sombria balançando um chocalho de cascavel. Já fico me imaginando desesperado na hora do nascimento, berrando "Toalhas! Água quente! MAIS ÁGUA QUENTE!" pela casa. Daqui a pouco vão dizer que o bebê é obra da cegonha, e não minha.
Agora tinha outra preocupação, no entanto: panettone com maionese. E onde é que eu ia encontrar panettone dois meses depois do Natal, meu Deus??? Sei que rodei a cidade e acabei encontrando uma bombonière que tinha um estoque imenso de panettones encalhados. E é claro que a loja ficava a um quarteirão do escritório onde trabalho. Que graça teria a vida sem essas ironias, não é mesmo? Lá fui eu para minha casa, triunfante, seis panettones (leve três, pague dois – eu não podia perder essa) e um frasco de maionese na mão. Sentia-me como Ulisses voltando para casa e para os braços de sua amada. Só que minha Penélope não parecia muito disposta a colaborar:
– Hum – disse ela, depois de passar uma enorme quantidade de maionese numa fatia de panettone. – Não é tão bom quanto eu imaginei.
– Como assim, não é tão bom? O que você imaginou?
– Ah, sei lá. Achei que tivesse um gosto mais assim de... De... Ah, sei lá. Achei que fosse mais gostoso. Feito quindim com requeijão.
– Quindim com requeijão??? Isso é bom?
– Não sei. Deve ser, né?
– Ai meu Deus...
– Hum... Quindim com requeijão... Eu preciso comer quindim com requeijão.
– Não precisa nada.
– PRECISO! Senão nosso bebê vai nascer com cara de quindim com requeijão.
– Aí a gente manda ele pro circo.
– Rá, rá... Bobo. Vem cá.
– Pra quê...?
– Vem cá, oras.
– Hum...
– Fala com ele.
– Hein?
– Fala com o bebê.
– Como é? Falar com o bebê?
– É. A Marininha disse que é importante a gente falar com ele. Faz bem para o desenvolvimento da criança.
– Pode ser, menina. Mas não agora. Você está no segundo mês de gestação. Ele ainda não pode ouvir, é só um girino.
– Girino????
– É... – alerta vermelho.
– Você está dizendo que o MEU bebê é um GIRINO?
– Bom, não é bem um girino. Assim, não propriamente dito. Ele só se PARECE com um girino, mas não é um girino. Não se preocupe, ele não vai virar um sapo. Hehe.
– SEU INSENSÍVEL! Você não se importa, você nem quer saber, fica falando que o meu bebê é um... um... um GIRIIIIIIIII...
E desatou a chorar. Tentei consolá-la como pude, o que não foi fácil. Ela dizia que eu não a amava nem ao bebê. Que ia abandoná-los. Meu Deus! E eu que pensava que já conhecia todas as variações de humor possíveis. Bobagem! Grávida ela está ficando mais instável ainda.
E amanhã a família dela vem aqui para o almoço em que comunicaremos a gravidez. Sei não, sei não. Maus pressentimentos.
Como diria Woody Allen, “I panic!”. Eu sei que devia consultar um ginecologista antes de ter certeza, mas a Marininha, a Jô, a Denise, a Jennifer e até a filha de doze anos do zelador acham que os dezesseis testes de farmácia terem dado positivo significam que SIM, EU ESTOU GRÁVIDA!!! Quando o último teste deu positivo, eu tive um ataque de choro sem precedentes. As meninas pegaram o telefone e discaram o número do celular do meu namorado, porque eu não conseguia lembrar nem em que cômodo da casa ficava o telefone... Apesar de ter ensaiado um infarto, ele até que recebeu bem a notícia. Aliás, o projeto de Robério de Ogum já desconfiava da minha gravidez. Aparentemente, homens também têm intuição – o que destrói a minha teoria de que eles só usam a sensibilidade para descobrir se a viscosidade do óleo do carro indica o momento da troca.
Quando meu namorado chegou em casa – com duas caixas do meu bombom favorito – tive outra crise de choro. As meninas já tinham ido embora e só o Poodle e o Gato me faziam companhia. O Gato reagiu com bastante indiferença à notícia. Já o Poodle resolveu comer um dos meus tênis para comemorar. Meu namorado e eu fomos jantar fora. E eu descobri que jantar italiano sem vinho consegue ser mais sem graça do que panettone sem maionese. Hummm... panettone com maionese..... Eu PRECISO de panettone com maionese!!!
Nesse final de semana eu vou organizar um almoço em casa para contar para a minha família sobre a gravidez. Isso se eu conseguir trancar a Marininha no guarda-roupa para impedir a divulgação imediata da notícia. Ontem ela saiu de casa com o mesmo brilho no olhar que aparece quando ela diz “menina, eu tenho uma bomba pra te contar!!”...

29.1.03

Oh, meu Deus. Acho que eu devia ter deixado o poodle em casa e mandado minha namorada para um spa ou algo assim. Seria mais seguro. Foi um choque chegar e dar de cara com ela parecendo o Coyote depois de mais uma perseguição frustrada ao Papa-Léguas. Tive que me esforçar para conter o riso ao ver aquela mulher toda estropiada vindo me receber na porta. Coitadinha, parecia tão frágil com aquela tipóia e o gesso no pé! E ainda ficou triste por não termos podido passar o Natal com a minha família. Toda quebrada, e preocupada com essas coisas... Ela pode ser um anjo de quando em vez.
E estava com uma mania nova também. Dá pra saber as estações do ano pelas manias dela. E a do verão é o Elton John. Quando fui para Porto Alegre, ela só conhecia Tiny Dancer, por causa daquela cena do ônibus de Quase Famosos. Não sei o que aconteceu durante minhas quatro semanas de batalha árdua por um contrato, mas quando voltei ela estava alucinada por Elton John. Skyline Pigeon, Goodbye Yellow Bricks Road, Rocketman, Your Song, tudo... Bom, não tudo. Pelo menos ela não fica ouvindo coisinhas chatas como Nikita ou Sacrifice, o que já é um alívio. Mesmo assim, é um exagero. Comprou CDs do cara. Dois DVDs. Fica procurando coisas a respeito dele na Internet. Até parou de me importunar com a velha história do aparelho ortodôntico: Agora diz que meus incisivos separados me deixam parecido com o EJ (que ela pronuncia i-djêi, é claro).
E eu nem posso reclamar da do Elton John. Se eu digo que hospedando o Monty já tivemos o suficiente de bicha inglesa pro resto da vida, ela rebate falando do meu repentino gosto por churrasco. Repentino... Eu sempre gostei de carne. SEMPRE. A viagem a Porto Alegre só acentuou um pouco isso. Digo que ela precisa ingerir proteínas, para acelerar a recuperação dos ossos. Claro que eu sei que ela precisa mesmo é de cálcio, mas é um mero detalhe. E, de qualquer maneira, nem essa demonstração de preocupação a comoveu: Depois de uma ou duas idas à churrascaria, começou a dizer que estava enjoada, que não podia nem olhar pra carne que embrulhava o estômago. "É cada desculpinha...", pensei.
E continuei pensando que fosse uma desculpinha, até uma madrugada em que ela pulou da cama e correu para o banheiro para vomitar.
- Tá tudo bem aí?
- Tá... Tudo bem... [ruídos]
- Tem certeza?
- Tenho.
Voltou para o quarto abatida.
- Você tá grávida.
- E você tá louco. Não começa com brincadeira.
- Não, sério. Você tá grávida. Esses enjôos...
- Nada a ver. Devo estar ruim do estômago, só isso. Se eu estivesse grávida,ia ter desejo de comer coisas esquisitas.
- Talvez isso comece mais tarde.
- Pára. Eu NÃO ESTOU grávida.
- Vai saber! E se seus desejos não forem de comer coisas esquisitas? Essa mania aí de Elton John, por exemplo. Ele é uma coisa esquisita...
- Ai meu Deus... Você quer tanto assim ser pai?
- Não é essa a questão. Estou só fazendo uma observação com base no que tem acontecido. Por que você não compra um daqueles testes na farmácia amanhã, só pra esclarecer isso de vez?
- Esclarecer o quê? Já disse que não estou grávida. Se estivesse, eu saberia.
- Saberia como?
- Intuição. Mulheres têm intuição.
- E homens têm raciocínio lógico. E agora meu raciocínio lógico está me dizendo que há possibilidade de você estar grávida. Compra o teste, vai.
- Se eu comprar o tal teste, você para de me importunar com isso?
- O que você acha?
- Acho que vai ser o único jeito. Mas vamos ter que fazer uma aposta. Se der positivo, você ganha. Negativo, eu ganho.
- Por mim tudo bem. Vamos apostar o quê?
- Oras, o quê! O de sempre...
- Sexo? OBA!
- Sabia que você ia gostar.
- Só tem uma coisa...
- O quê?
- Será que não vai fazer mal pra criança?
- Não enche, me deixa dormir.
Por mim eu passaria o resto da madrugada azucrinando com essa história. Mas o bom senso me fez parar. Não é bom abusar da paciência de gestantes. Pouco depois do almoço daquele dia, a conversa da madrugada já meio esquecida, o telefone toca. Ela. Chorando.
- Blbrfblnbntiiiiiiiiiiiiiivo!
- Calma, menina. Não tô entendendo nada. Respira fundo. Conta até dez. Caaaaaalma... Agora me fala.
- O teste deu positivo! [soluço]
- Teste? Que tes... O TESTE DEU POSITIVO???
- Eu tô grávida! [fungada]
- VOCÊ TÁ GRÁVIDA???
- Vai ficar repetindo tudo que eu falo?
- ...
- Você ainda está aí?
- Er... Tô. É que... Puxa!
- EU SEI! Vem pra cá!
- Estou indo.
Peguei minhas coisas e saí correndo do escritório. Correndo mesmo, esbaforido, e acho que estava com um sorriso besta na cara. Todo mundo me olhando, e eu nem aí. Como é que eu ia ligar pra coisas tão pequenas? Eu vou ser pai!

19.1.03

Dá para explicar com poucas palavras como é a minha vida: um carro desgovernado. Eu sou a maluca ao volante, tentando evitar um capotamento. Bom, olhando para a minha imagem refletida no espelho, parece que o acidente realmente aconteceu. Tentar enfeitar aquela gigantesca árvore de Natal (que só Deus sabe como consegui enfiar dentro de casa) foi mesmo uma péssima idéia. Não. Usar aquela escada centenária para isso é que foi a escolha errada. Ou melhor, inventar a brincadeira toda depois de três copos de uísque foi merecedor do Nobel da Estupidez. E eu que achava que não era praticante de esportes radicais... As conseqüências da aventura foram um ombro deslocado e o rompimento dos ligamentos do tornozelo esquerdo. Sem mencionar o Monte Everest que nasceu na minha cabeça. Nem a Marininha nem eu conseguimos explicar ao médico como esse desastre pôde acontecer na sala de um apartamento. As duas estavam bêbadas demais para lembrar de alguns detalhes, como por exemplo o que eu fazia com aquele sino no hospital. “Que sino?”. “Esse aí na sua mão”. Por algum motivo eu estava levando o sino que iria pendurar na árvore para a sala de raio X.
Pior que o gesso e a tipóia foi ter que passar quatro semanas sem meu namorado. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo sem nos ver. E o primeiro Natal separados desde que nos conhecemos. Mas eu não sou tão amarga a ponto de ignorar o lado bom das coisas. Finalmente não precisei almoçar com aquela família maluca! Tio tarado, tias fofoqueiras, primas esnobes e o pior tradicional-bolo-natalino-de-nozes do mundo. Feito por quem? Pela minha sogra, claro! “Aceita um pedaço de bolo, querida?”. “Não, obrigada. Eu estou de dieta e...”. “Ah, você não vai fazer essa desfeita pra sogrinha, vai? Hoje é Natal!” “É que eu...”. “Pega! Tá delicioso”. E lá vou eu empurrar aquela gororoba com dois copos de Coca-Cola. O clássico diálogo só seria diferente dessa vez por um detalhe. Ela seguramente ofereceria 50 reais para eu comer o bolo. Com certeza ela ainda não esqueceu o bilhete que encontrou em casa quando... ARRRGH! Eu não gosto nem de lembrar.
Meu namorado voltou de Porto Alegre no dia 30. Animadíssimo. Nem se importou de passar o réveillon assistindo à trilogia O Poderoso Chefão na cama comigo. Fechou um ótimo contrato com O SENHOR Darcy e aparentemente passou o resto do tempo comendo - engordou cinco quilos, todos na região abdominal. Ele voltou da viagem viciado em churrasco. Com o pretexto de comemorar a assinatura do contrato (ou qualquer outra coisa, como o bom comportamento do Poodle em um final de semana), já nos tornamos assíduos freqüentadores das churrascarias paulistanas. Ontem mesmo ele quis almoçar em um rodízio perto de casa mas eu joguei a toalha. Pra mim, chega. Já comi tanto que há quatro dias não consigo sentir o cheiro de comida sem enjoar.

O prazo de validade da minha raiva venceu no momento em que vi aquela cena na TV. Uma linda história de amor que me fez chorar muito e pensa...