Ela

Eu não vou sobreviver. Uma semana inteira, sete intermináveis dias, tentando segurar a língua solta do meu namorado. Por que aquela maldita gripe não chegou junto com meu primo? Ia ser mais fácil impedir as situações embaraçosas com ele de cama. E serão muitas porque... bem, porque... meu primo não é exatamente o Xandão que eu conhecia... Como isso pôde acontecer?! Loiro, olhos verdes, corpo malhado e bronzeado. Quem teria resistido a um primo assim? Eu, não. Nem as mulheres com idade entre 16 e 30 anos de Ubatuba. Ele continua com essa aparência, só que agora tem seis piercings: na língua, um em cada mamilo, na orelha, outro na sobrancelha e o último “no parque de diversões do Monty”. Esse eu faço questão de não saber exatamente onde está - e espero que o rei-da-situação-constrangedora também não.
Na primeira noite meu primo resolveu que, enquanto estiver em casa, vai tomar conta da cozinha. Meu namorado até abriu uma garrafa de champanhe pra comemorar (filho da puta!). Depois do jantar achei que poderia relaxar, imaginando que o casal estivesse cansado da viagem e fosse dormir. Eu ainda aprendo que minha vida não é simples assim. “Álex, dear, vamos àquele lugar que Johnny falou?”, foi a primeira frase que Monty completou em português sem a ajuda do Alexandre. “VAMOS!! VAMOS!!” e lascou uma bitoquinha na boca do inglês. Dava pra ler as palavras “garanhão ele, heim!” no sorriso do meu namorado. Antes que eu perguntasse se eles queriam o carro emprestado, meu primo levantou, “prima, bota uma roupa bem linda and let's have some fun!”. Meu namorado só tirou o sorriso de satisfação da cara quando eu disse que iria, desde que ele fosse também. “Eu?!? Mas eu vou trabalhar amanh..”. “Vocês não vão fazer essa desfeita com as visitas, vão? Quero ver todo mundo pronto em trinta minutos”. Uma hora depois estávamos os quatro no carro, em direção ao tal lugar: uma danceteria chamada P’soas. O próprio paraíso – não para as solteiras, claro. Disco music a noite toda, cerveja à vontade (meu primo bancou tudo) e homens sem camisa dançando por todos os lados. No começo meu namorado ficou meio tenso, mas não levou mais de quinze minutos pra ele relaxar. Bom, relaxar não é bem a palavra. Um casal de loiras lindas dançando e se beijando perto do bar foi o suficiente pra deixá-lo mais animado. Aliás, muito animado. Entregamos a chave do carro pro Alexandre e voltamos de taxi. Nas horas seguintes constatei que ele, definitivamente, se recuperou da gripe. O que só aumenta a minha preocupação. Antes de dormir, ele ainda comentou: “que garanhão esse seu primo, heim! Ui!”. Ai meu Deus...

-- O Alexandre vem passar uma semana aqui.
-- Uma semana, hein? Que legal. Quem é Alexandre?
-- Você sabe quem é. Meu primo que mora em Londres.
-- Ah, acho que você já me falou dele sim.
-- Ele disse que vem com uma pessoa.
-- Namorada?
-- Deve ser.
-- Como assim, deve ser?
-- Ele só disse isso: Que vinha com uma "pessoa".
-- Ai meu Deus. Uma "pessoa"!
-- Ué, que que tem?
-- Oras! Se eu fosse passar uma semana na casa de alguém com você, eu diria: "Estou indo com minha namorada", ou "Estou indo com a minha mina", ou "Tô levando a patroa", ou ainda "...a polícia". "Pessoa" é um negócio muito vago.
-- Se eu ouvir você se referindo a mim como "patroa" ou "a polícia" você sabe o que acontece...
-- Não é disso que a gente está falando. Foi só um exemplo. A gente está falando do seu primo gay.
-- O Alexandre?! Hahaha... Fique sabendo que o Alexandre era o garanhão da família!
-- As coisas mudam.
-- Acho muito difícil...
-- Peraí. Essa cara... Cê já experimentou o garanhão da família, né?
-- ...
-- Deus! Espero que ele tenha virado gay mesmo.
Ótimo. Depois de uma gripe que quase me mata -- já passou, mas tenho que fingir que ainda estou um pouco doente, para não dar o braço a torcer -- a notícia da chegada do "garanhão da família". Minha vida é tão engraçada! E para tornar tudo mais divertido ainda, minha querida namorada foi ao supermercado hoje de manhã e parecia que estava pensando em se arriscar na cozinha mais uma vez. Dois motivos de apreensão, portanto: O Don Juan de Ubatuba e a expectativa de mais uma vez provar os manjares produzidos pela arte culinária de minha cara-metade. Eu estava na sala, violão em punho, tentando lembrar os acordes de Tiny Dancer, quando ela chegou com o primo garanhão e sua "pessoa".
-- Alexandre, esse é meu namorado o...
-- OIIIIIII! Nossa, a prima fala de você o tempo todo. Espero que fale de mim também. Eu sou o Alexandre, e esse é o Montgomery. Mas chama de Monty, que ele de-tes-ta Montgomery. De-tes-ta.
Separando as sílabas desse jeito. Achei que fosse lenda. Não importa: O primo não tem nada de garanhão, e a "pessoa" é um inglês esquálido e narigudo, crítico de música de uma revista dessas que eu nunca lembro o nome. Excelente. O fato de estar tocando Elton John quando eles chegaram não depõe muito a meu favor, mas duvido que tenham notado. Ela foi mostrar a eles o quarto de hóspedes, e comentei de passagem:
-- Garanhão, hein?
-- Cala a boca.
E melhores notícias me esperavam! Estávamos conversando na sala, quando ela se levantou dizendo que ia preparar o jantar.
-- Que é isso, prima? Pode deixar a cozinha comigo!
-- De jeito nenhum! -- Minha espinha gelando -- Você é meu hóspede, não vou deixar você cozinhar.
-- Deixa de bobagem! A-do-ro cozinhar. Vamos, só me mostra onde estão as coisas.
Ok, exagerei. Ele não separou as sílabas dessa vez. Não importa. O negócio é que ele foi até a cozinha e quando saiu, cerca de uma hora depois, veio trazendo o meu melhor jantar em, sei lá, vinte anos!
-- Alexandre, parabéns. Fazia tempo que eu não comia tão bem.
-- Eu sei, bobinho. Conheço os dotes culinários da minha priminha...
-- Pois é. Olha, se você não fosse comprometido, eu pensaria seriamente em...
Oras, era só uma piadinha. Nada de mais. Mas tive que me interromper, porque recebi de minha querida namorada aquele olhar de navalha que só ela sabe fazer.

Ela

“Faz um chá pra bim?... Eu dão tô legal...”. Homem gripado é um porre. Lembro do meu pai se arrastando do sofá pra cama, da cama pro sofá, com o rolo de papel higiênico numa mão e o potinho de Vick VapoRub na outra. Só tomava chá e sopa. “Por que ele não come comida de verdade, mãe?”, “Porque homem gripado tem preguiça até de mastigar, filha”. Meu irmão diz que dói abrir os olhos, então nem sai da cama. Mês passado levei os três pra tomar a vacina. Perdi meu tempo. Poucas semanas depois e meu namorado já desmoronou no sofá, reclamando que o termômetro está quebrado porque não acusa a febre de 39 graus. Febre essa que resiste aos remédios inúteis que eu deixei pra ele. Que sexta-feira! Tomei um banho e fui preparar o chá. Ele pediu o violão mas eu fingi que não era comigo. Era só o que me faltava. Um homem gripado, com o nariz todo assado, cantando pra mim... Mudei de assunto, aproveitando pra contar que meu primo iria passar uma semana com a gente. Ele e uma “pessoa”. “Que pessoa?”. “Sei lá, foi o que ele disse pelo telefone”. Na verdade o Alexandre explicou que era uma pessoa maravilhosa que ele tinha conhecido em Londres. Ia passar uma semana no Brasil e fazia questão de ficar aqui em casa porque eu iria adorar a tal “pessoa”. Deve ser alguma inglesinha por quem ele se apaixonou. Eles já estão morando juntos há alguns meses, só pode ser isso. “Bas ele falou quando vem?” (eu preciso ter um estoque de descongestionante nasal em casa!), “Segunda. E não precisa fazer essa cara, eu vou buscar os dois no aeroporto”. Depois do chá, fomos pra cama e ele esqueceu completamente o violão. Dormiu em menos de cinco minutos...
Passamos o final de semana todo vendo filmes. Aliás, meu namorado só me deixou sair de casa pra ir à locadora. Fez chantagem emocional, dizendo que eu estava abandonando um doente sozinho em casa, com aquele febrão todo... A única coisa que ele fez foi ligar pra pizzaria e pedir uma pizza de javali - culpa desses programas de culinária que ele ficou vendo na TV. Tive que desmarcar o cabeleireiro e a manicure. Cancelei até a ida ao shopping com a Marininha, mas acho que a promoção vai até a semana que vem. Se ele ao menos fizesse como o gato, que não passa mais de três horas por dia acordado, eu teria dado um pulo rápido no supermercado. Meu primo chega amanhã e eu não tenho nada na geladeira. Espero que dê tempo de comprar algumas coisas antes dele chegar. Pelo que eu conheço do Alexandre, a namorada dele deve ser bem fresquinha.

Não é justo. Eu tomei aquela vacina mês passado, então não deveria estar gripado agora, deveria? Só que estou. Gripado, jogado no sofá, assistindo à empolgante programação vespertina da TV. TV aberta, já que acabei não pagando mesmo a conta da TV a cabo e até minha cara-de-pau conhece limites. Excelente. E para tornar tudo melhor ainda, minha insensível namorada foi trabalhar. Eu sei que chamá-la de insensível não é muito legal, ainda mais depois daquele pedido de desculpas com direito a Let's get it on cantado em público. Lindo, perfeito. Mas tomamos uma puta chuva na volta do bar, e agora estou nesse sofrimento. Não acreditei hoje de manhã quando ela disse que ia trabalhar.
-- Como assim, vai trabalhar?
-- Trabalhar, ué. Aquele negócio que eu faço todos os dias de manhã.
-- Mas eu estou doente!
-- E eu não. Deixa de ser manhoso. Botei comprimidos contra resfriado e um termômetro no balde de gelo. Acho que você vai sobreviver pelo menos até a noite, não?
-- Manhoso? Quem é manhoso?
-- Você sabe que é. Homem gripado é um porre.
-- Ah, e mulher não?
-- Não. Não somos tão sensíveis a isso. Deve ser porque estamos preparadas para coisas mais dolorosas, como o parto, por exemplo. E as mulheres trabalham até um dia antes de parir, enquanto os homens mal se agüentam em pé com uma simples gripe.
Eu ia argumentar, mas ela ia me chamar de ridículo, e odeio quando ela me chama de ridículo. O negócio é que o parto tem suas compensações. Quero dizer, no final do sofrimento todo você tem nas mãos no mínimo uma criança, que vai alegrar a casa e te amparar na velhice. E no fim da gripe, o que você tem? Uma pilha gigantesca de lenços ranhentos. Sei que no fim ela saiu dizendo que tinha que chegar cedo, porque precisava resolver um problema com um rotador. Ou roteador, sei lá.
Então agora estou aqui, 39 graus de febre (embora esse termômetro burro insista em marcar 37), entupido de remédios que não fazem efeito e, sei lá porquê, deixando uma senhora de meia idade e laquê nos cabelos me ensinar como preparar crepes suíços. E até que não é tão ruim, levando-se em conta que a segunda melhor alternativa seria assistir a uma emocionante partida de sinuca. Quem assiste sinuca na TV, meu Deus???
Não há de ser nada. Minha voz está horrível. Vou cantar Tiny Dancer pra ela hoje à noite. E ela vai ter que ouvir. Ah, vai.

Ela

“Obrigada... Eu tô muito emocionada de receber esse prêmio. Err... Queria agradecer a todos que me ajudaram na realização desse projeto, principalmente ao Jair e a Solange. Valeu, gente!”... Esse é o meu discurso de agradecimento por receber o prêmio da categoria melhor namorada romântica (com o troféu do campeonato de handebol do colegial nas mãos). Foi lindo... Do trabalho eu fui direto pra casa do Jair. Ele e a Solange me ajudariam numa tarefa simples: escolher a música que eu iria cantar pro meu namorado - num bar lotado! Idéia roubada do filme O Casamento do Meu Melhor Amigo, diga-se de passagem. Tentei alguma do João Gilberto, mas ele choraria ao me ver assassinando Chega de Saudade. Arrisquei as primeiras frases de Pela Luz dos Olhos Teus, que era o que estava tocando quando a gente se beijou pela primeira vez, na festa da Marininha. Desisti. O pessoal do bar ia pensar que eu estava fazendo propaganda de carro. Pensei em Tiny Dancer, que nós costumamos cantar juntos quando ele resolve tirar a poeira do violão, mas dava pra ver claramente porque eu nunca tentei a vida como cantora. A Solange sugeriu alguma do Daniel, e eu recusei por motivos óbvios. Fuçando nos vinis do Jair, encontrei a música perfeita pra cantar pro meu namorado: Let’s Get It On, do Marvin Gaye. Eu já cantei essa música pra ele antes, em circunstâncias ligeiramente diferentes: no nosso quarto, completamente bêbada e semi-nua (ou semi-bêbada e completamente nua, não lembro direito). Dessa vez seria num bar onde vamos quase toda semana, com platéia e acompanhamento do Luis, que canta e toca lá há um bom tempo. E roupas, claro. Tudo isso pra ele me perdoar do faniquito sem motivo da outra noite. De quebra eu ainda ia realizar um sonho de infância. O Jair ligou e disse que pegaria ele pra tomar uma cerveja. “Pô, Jair, vai cair uma puta chuva...”. Ele relutou mas acabou aceitando. Expliquei pro Luis a situação e ele concordou em me deixar cantar, “ Por mim não tem problema, mas se prepara, você vai ser motivo de chacota depois” (e eu que pensei que só personagens de novela da Globo usassem a palavra "chacota"). O bar todo olhou pra mim quando peguei o microfone. Quase travei de vergonha. Assim que ele entrou eu comecei: “I’ve been really tryiiiiiiing, baby.” Um horror. Mas ele gostou e o pessoal no bar também. Ou aplaudiram a minha coragem, sei lá. Teve até uma moça que pediu bis! Eu achei melhor parar por ali e a Solange não insistiu... O importante é que o resto da noite foi maravilhosa. Incluindo a “puta chuva” que nós tomamos na volta e a gripe pintando na manhã seguinte.

Ele

Rá. Já vi esse filme. O Ataque dos Hormônios. Ninguém mais agüenta e mesmo assim é reprisado todo mês. Parece TV a cabo -- quando pagam a conta, claro.
Depois do súbito ataque de fúria e do longo período de indiferença -- todo o episódio do seriado, a novela e o telejornal --, ela começou a chorar. Conheço esse choro. Ela tenta falar enquanto chora e eu não entendo muita coisa. O tom da voz sobe uma oitava e depois desce duas. É engraçado, mas eu fico firme, não rio. Não sou louco. Dessa vez ainda consegui pegar algumas palavras esparsas. Alguma coisa sobre trocá-la pela Renata. Era o que me faltava, trocar minha vidinha boa por aquela mulher insuportável da voz esganiçada. Mas não discuto quando ela está assim. É parte do segredo. Parte não. É o segredo todo: Manter-se em silêncio e, acima de tudo, jamais mencionar a sigla proibida: TPM. Ela diz que TPM não existe, que é uma mulher forte e não se deixaria abater por algo tão irracional como um jogo de hormônios. Deve ter lido isso numa dessas revistas que ela e a Marininha lêem como se fossem os Manuscritos do Mar Morto... Enfim, conheço meus direitos, e sei que qualquer coisa que eu disser poderá ser (e será) usada contra mim. Fico quieto e espero a tempestade hormonal dar uma acalmada.
Dormiu no quarto de hóspedes; não tentei convencê-la do contrário. "Como quiser, sem problemas". Se minha mãe pode dormir lá, ela também pode. Na manhã seguinte começaram os habituais resmungos sobre cabelo-peso-dotes culinários. O cabelo dela está como sempre foi. Ela diz que está acima do peso, mas não vejo diferença. E os dotes culinários... Os dotes culinários... É, às vezes ela tem razão.
Sei que saí para trabalhar e o clima continuava pesado. Quando cheguei, vi uma revista jogada sobre o sofá. "Ôba, uma pista". Certifiquei-me de que ela não estava e fui dar uma conferida na capa da revista. Entre alguns títulos sobre estética e vida profissional, dois grandes sobre relacionamentos:
1) Como romper um relacionamento (quase) sem dor (em letras azuis, com o "quase" em itálico)
2) 20 maneiras de manter seu namorado apaixonado (em letras vermelhas, com o "20" ocupando três linhas)
Ok. Odeio essa incerteza. E essa mulher não chega logo do trabalho. Ainda bem que tenho o canal erótico (grátis!) para me distrair.

Ela

Precisava contar? PRECISAVA?! O sr. Sabichão tinha que contar pra todo mundo o quanto eu sou irresponsável e incapaz de resolver um problema sozinha?? Eu vou precisar de milhares de sessões da análise pra superar aquela humilhação. Nunca mais vou ver ninguém que estava em casa ontem. A essa altura, meus amigos estão comentando entre si “Nossa, como ela é burra!”. Pior. Estão contando aos outros, que não estavam aqui, o quanto eu sou imprestável. Quando a mocréia da Renata ficar sabendo, vai dizer a ele que ela nunca faria isso e ele vai me abandonar. Já vi tudo. Ele vai se arrepender de ter terminado o namoro com aquela vagabunda e vai voltar pra ela! ARGH. Mas a culpa é minha. Quem manda não saber mentir? Arrumei a casa toda, demonstrei interesse no dia dele, contei como foi o meu e preparei um jantar especial sozinha -- devidamente jogado no lixo e substituído por pizza (curso de culinária está cada mais perto do topo do meu ranking de prioridades). Eu até lustrei o balde de gelo com aquela meleca nojenta que minha mãe deu pra clarear prata. Além de inútil, o tal presente agora precisa de cuidados especiais... Enfim, tudo isso pra quê? Pra contar que esqueci de pagar a conta nos primeiros dez minutos de conversa. Até aí, tudo bem. Ele nem ficou nervoso. Resolveu o problema com uma simples ligação e a cara-de-pau que herdou da mãe. Além de fazer com que o sinal voltasse naquele momento, ainda conseguiu um mês de canal erótico de graça. Pois que veja aquela putaria toda SOZINHO! Vou continuar dormindo no quarto de hóspedes. Ele não me ama mais. Só pode ser isso. Não sei cozinhar, três quilos acima do peso, meu cabelo me odeia, e agora, burra. Os pais da Renata têm buffet, ela é linda e inteligente e voltou a dar em cima dele. As ex-namoradas deveriam ser extintas! Se eu não fizer alguma coisa ele vai me abandonar ainda hoje. A Marininha diz que eu estou exagerando por causa da TPM. Ora, que bobagem. TPM nunca me afetou. Eu sou bastante controlada pra ter chiliques-hormonais. Isso é frescura. Vou esquecer o episódio traumatizante de ontem e preparar uma surpresa pra ele hoje. Onde eu enfiei aquela revista com a matéria “20 maneiras de manter seu namorado apaixonado”?...

Ele

Eu soube que havia alguma coisa errada assim que cheguei em casa e bati o olho sobre o arranjo de flores do campo dentro daquela cumbuca horrorosa que ela chama de vaso-que-mamãe-deu-pra-gente. Assim mesmo, parece uma palavra só quando ela fala.
-- Hum. Oi.
-- Oi.
-- Que é isso?
-- Temos visita hoje.
-- Sua mãe? -- Pânico.
-- Não, uns amigos.
-- Ah. -- Alívio -- Que amigos?
-- Ora, que amigos. Seus amigos. Nossos amigos.
-- Legal.
Fui até a cozinha, peguei uma cerveja e me sentei na frente da TV. Ela veio e se sentou no meu colo.
-- Como foi seu dia?
-- Aquilo de sempre. Os clientes brigam comigo, eu brigo com os fornecedores, rotina. Qualquer dia dou os telefones dos fornecedores para os clientes, compro umas pipocas e fico assistindo.
-- HAHAHAHAHA!
-- Hum. Não foi tão engraçado assim.
-- Não vai perguntar como foi o meu dia?
-- Você quer contar?
-- Claro que quero!
-- Tá. Como foi o seu dia?
Pronto. Começou uma história comprida sobre um sistema cujo prazo está estourando porque o servidor do cliente não é, sei lá, suficientemente grande. Um dia ela ainda vai entender que meus conhecimentos de informática restringem-se a botão liga/desliga, teclado e mouse. Eu entro em pânico só de pensar em um dia precisar mexer em todos aqueles botõezinhos do monitor. Mas, eu dizia, era uma história comprida e ela não estava respirando para falar.
-- Tá tudo bem?
-- Claro que sim! Depois de tudo isso convencemos o gerente deles a comprar um servidor novo, que saiu caro, mas valeu o investimento porque agora o desempenho...
-- ... Tá tudo bem com você?
-- Comigo? Ora, claro. Consegui resolver esse pepino no trabalho, nossos amigos vêm nos visitar hoje, estou aqui com o homem da minha vida...
-- Xi...
-- Xi o quê?
-- Sempre tem alguma coisa errada quando você vem com essa de "homem da minha vida". Vai, pode falar, o que aconteceu?
-- Droga.
-- Pode falar.
-- Você não vai ficar bravo?
-- Vou tentar.
-- Eu-não-paguei-a-conta-da-tv-a-cabo-e-agora-você-não-vai-poder-ver-aquele-documentário. Desculpa.
-- O documentário sobre Groucho Marx?
-- Esse.
-- Ora, e eu pensando que fosse coisa séria! Você me deixou preocupado, sabia?
Ela ainda tentou explicar a história em detalhes, alguma coisa a ver com a Marininha e sexo tântrico. Aliás, preciso lembrar de voltar a esse assunto com ela depois, parece interessante. O fato é que tudo se resolveu de maneira bem simples: Liguei para a operadora de TV a cabo com voz de consumidor bravo, perguntando o que tinha acontecido com meu sinal. A moça do outro lado explicou que não constava o pagamento.
-- Pois eu acho muito estranho não constar o pagamento, sabia? Porque eu paguei dois dias antes do vencimento!
-- Mas senhor, o pagamento não consta.
-- Como não consta, minha filha, se estou aqui mesmo com a via do banco autenticada?
-- O senhor poderia estar passando um fax da via autenticada?
-- Não, eu não poderia estar passando o fax, porque acontece que não tenho fax na minha casa. Se o sistema de vocês está furado, isso não é problema meu. Eu paguei essa conta e estou solicitando a você que reestabeleça o serviço pelo qual paguei. Ou será que vou precisar procurar o Procon?
Bom, a conversa seguiu nesse tom por uns vinte minutos. O segredo é não abrir mão da cara-de-pau, permanecer firme. No fim das contas o sinal voltou e ainda ganhamos um mês de canal erótico grátis. Ela riu com visível alívio, e fomos assistir ao documentário sobre Groucho. No intervalo do documentário os primeiros amigos chegaram, e ao final já éramos um grupo alegre de oito pessoas, rindo, falando alto e bebendo.
Mas aí algo deu errado. Ora, é claro, eu não sei por que ainda me surpreendo. Acontece que o Jair, meu amigo desde os tempos da escola, contou uma história engraçada sobre a Solange, namorada dele. Alguma coisa sobre um penteado que não deu certo, não lembro direito. Os dois riram muito e eu me senti estimulado a contar o que acabara de acontecer. Todo mundo riu muito, inclusive minha querida namorada. Lindo.
Foi o último convidado fechar a porta atrás de si para ela me olhar com uma cara assustadora e dizer que eu a humilhara na frente dos amigos. Que passara para eles uma imagem dela como burra, irresponsável e incapaz de resolver os problemas mais simples. Falou muito mais, mas não registrei. Virei uma samambaia na hora, tamanha foi a surpresa, e tenho a impressão de ter balbuciado coisas desconexas. Caramba, nunca achei que um dia eu chegaria ao ponto de balbuciar. Pois cheguei.
Agora está fria comigo. Não quer conversa. Está lá sentada no sofá, olhos fixos num episódio de seriado que já viu dezenas de vezes. E só está vendo agora porque eu consegui o sinal de TV a cabo de volta.
Eu juro que um dia eu vou embora. Um dia. Mas não essa semana, porque sábado tem um documentário sobre o Woody Allen.

Ela

Ele vai me matar. Claro, eu nunca vou admitir que esqueci de pagar aquela maldita conta. Já foi difícil convencê-lo de que eu acreditava que Mauro era o primo, e não o tio do vibrador (puta merda, eu nunca vou esquecer a história do vibrador...) e que nem me passou pela cabeça que o aniversariante da semana passada tivesse entrado pro seminário (e era verdade!). Pôxa, qual é a chance disso acontecer com um garoto em plena adolescência? Os hormônios dele não deveriam estar saindo pelos poros? Não importa agora, meu espartilho me salvou de uma briga inútil naquela noite de domingo. E que noite!... Três dias depois eu ainda me pego pensando em como agradecer Margot Saint-Loup, a autora de “177 Maneiras...”. Vou ter que continuar lembrando dela por um tempo, porque depois que ele descobrir que eu deixei de pagar a TV a cabo desse mês, vou entrar num período de entressafra sexual. Aqueles envelopes todos que eu rasguei, pensando se tratar de mala-direta avisando sobre um novo canal disponível, deviam ser avisos de que a conta não foi paga. Ele vai ficar uma fera. “Posso mesmo deixar com você? Tem certeza de que não vai esquecer?”, “Assim você me ofende! Tá me chamando de irresponsável?”. ARGH. Como eu pude esquecer? Não foi culpa minha. Deixei a conta dentro daquela revista justamente pra não esquecer. Se a Marininha não tivesse levado a revista pra mostrar pro namorado a matéria sobre sexo tântrico, ele poderia assistir numa boa àquele documentário -- que está esperando há um mês! -- hoje à noite. E como eu vou dizer que a transmissão só vai voltar amanhã? Não, eu não vou dizer nada. É isso. Ele vai achar que foi um problema na transmissão e tudo vai ficar bem. Até ele ligar lá e descobrir que “sua conta não foi paga, senhor”. Socorro. Êpa, se eu fizer com que ele esqueça desse tal documentário, talvez nem perceba o que aconteceu. Cinema, nem pensar. Assim que ele pensar em que filme quer ver, vai lembrar do tal programa. Visita a algum parente está fora de cogitação. Ele detesta visitas surpresas, principalmente no meio da semana. Se tivesse algum show do João hoje... Um jantar romântico, no melhor restaurante da cidade é uma saída. De jeito nenhum, ele vai desconfiar. Já sei! Vou convidar alguns amigos pra jantarem em casa e passaremos a noite bebendo vinho e ouvindo música! Einstein, morra de inveja!

Ele

Do cartão com o dinheiro eu não falo mais nada. Quero esquecer esse episódio. Basta dizer que minha mãe e suas amigas ficaram rindo na sala até as duas da manhã, enquanto eu mal respirava no quarto. Só consegui dormir quando as velhas resolveram ir embora, e meu sono não foi agradável, permeado por sonhos estranhos: Minha mãe dando dinheiro à minha namorada. Meus pais saindo do banco. Notas de cinqüenta reais saindo da minha cueca. O que Freud diria disso tudo? Não quero saber, duvido que Freud tenha passado por situações assim. Só quero esquecer.
No dia seguinte (ontem), tinha almoço na casa da minha tia. Bem que eu queria deixar minha mãe ir sozinha, mas seria dar muita liberdade para ela. Sem minha presença ela ficaria muito à vontade para espalhar a história. Comigo por perto, ela deveria se conter. Expus esse argumento à minha cara-metade, e mesmo assim ela não se convenceu:
-- Não vou. Sua mãe vai falar pra todo mundo de qualquer jeito, então prefiro não estar por perto.
-- Ela não teria coragem!
-- Ah, não? E o vibrador do seu tio, hein?
-- Pô, você nunca vai esquecer essa história?
-- Seu tio já esqueceu?
-- Hum... Tudo bem, então você fica. Mas nunca mais vai ganhar um dinheiro tão fácil na sua vida.
Levantei-me e fui à cozinha, onde minha mãe já estava tomando o café da manhã. Ao me ver seus olhos brilharam, e tenho certeza que não foi de amor maternal.
-- Bom dia, mãe.
-- Bom dia...
Odeio quando ela fala com reticências
-- Dormiram bem?
Ênfase no "bem". Ai ai.
-- Sim, e a senhora?
-- Como um anjo...
Reticências de novo. Droga.
-- Que bom. Hum. Acho que vou tomar banho. Temos que sair meio cedo, a casa da tia fica do outro lado da cidade, e eu ainda tenho que comprar o vinho para levar, e ela não gosta que a gente chegue atrasado e...
-- ... Entendi. Você vai tomar banho. Tudo bem.
Eu falo demais quando estou nervoso. Não consigo controlar. E se qualquer um percebe que estou nervoso quando começo a tagarelar, imagine minha mãe. Nessa hora eu soltaria um "ARGH!", se soubesse fazer o agá do final. Como não sei, calei a boca e fui tomar banho.
E lá fomos nós para a casa da minha tia. Tentei quebrar o silêncio pesado dentro do carro uma vez:
-- Mãe, pega ali na porta aquele CD do João Gilberto?
-- Ora, mas assim, de graça?
O senso de humor da minha mãe é esquisito. Permaneci calado o resto do tempo, mesmo porque precisava me concentrar no caminho. Aquelas ruas do Tatuapé sempre me confundem.
O almoço transcorreu bem. Sempre que minha mãe abria a boca (para falar, não para comer), eu prendia a respiração esperando a bomba. Mas ela se comportou como uma lady, eu não precisei cavar um buraco no jardim para me enterrar de cabeça para baixo e ainda tive sangue frio suficiente para dar uma cochilada depois do almoço.
Já começava a escurecer quando fui acordado pela minha tia. Era hora de começar a segunda parte da peregrinação familiar, do Tatuapé para o Brooklin: Casa do tio Mauro, para o aniversário de dezessete anos do meu primo. Lá fomos nós. No caminho, quando eu pedi à minha mãe para verificar se o presente do Mário estava no porta-luvas, ela apenas disse
-- Está sim. Deve ter sido difícil escolher um livro para um seminarista, não?
Olhei bem para ela, mas não percebi nenhuma ironia. O Mário é seminarista, é difícil saber que tipo de coisas um seminarista lê, só isso. Perfeito.
Perfeito, pois sim. Um dia eu ainda aprendo que nada é perfeito. A harmonia toda se desfez de uma vez só quando entreguei o presente ao Mário.
-- Pega aí, Mário, tenho certeza que você vai gostar. Esse livro vai ser muito útil para você.
É bom que se diga que eu não sabia do que se tratava. Mas ela me garantira que era a cara dele, então eu nem discuti. Quando o Mário abriu o embrulho -- a família toda olhando -- o tempo ficou suspenso. "177 maneiras de enlouquecer uma mulher na cama". Para um seminarista. Um futuro padre. Rá.
-- Ahn... Mário? Acho que houve algum engano. O livro que eu comprei para você é "A biografia não-autorizada de Santo Agostinho". Esse aí não é pra você não. É pra mim. Dá aqui.
E as coisas ainda podiam piorar.
-- Ah, mas você não precisa... -- Disse a Beth, minha priminha gostosa. Pelo jeito minha mãe não tinha ficado de boca fechada tanto quanto eu gostaria.
Tudo bem, tudo bem. Até que me saí bem com aquele papo de Santo Agostinho. Passei o resto do tempo sentado no sofá, bem quietinho folheando o "meu" livro e tentando aparentar normalidade. Na dedicatória do livro, ela escrevera "Para o Mauro". Então podia ter sido pior. Porque Mauro não é meu primo, é meu tio. O do vibrador.
Saí cedo da festa, claro. Minha mãe ficou por lá, é mais perto do aeroporto, e ela pegaria o vôo de volta para Belo Horizonte no dia seguinte. Voltei para a casa doido para começar uma briga. Mas quando cheguei e dei de cara com ela deitada de lado no sofá usando aquele espartilho, com uma garrafa de vinho branco pela metade dentro do balde de gelo, esqueci tudo. Ainda bem que folheei o tal livro na casa do tio Mauro. Não é para me gabar, mas agora devem faltar só umas 170 maneiras...
Agora só preciso descobrir uma biografia de Santo Agostinho, de preferência não-autorizada.

Ela

Em menos de um dia eu tive tudo o que uma mulher precisa pra ser feliz: flores, vinho, canelone de palmito, sexo, mais vinho, mais sexo, dormir até uma e meia da tarde. E eu ainda recebi 50 reais pra ter tudo isso! É ou não é o paraíso? Seria, se minha sogra não achasse que o filho me paga pra me fazer gozar... Pois é. Junto com o kit perdão dele veio outro bilhete obsceno que, pra variar, eu não fui a única a ler. Alguma coisa do tipo “te dou 50 reais pra você gozar como louca” num cartãozinho preso a uma nota de cinqüenta. Ele esqueceu o cartão na sala e a mãe dele leu a tal proposta. Pelo menos agora ela vai parar de perguntar de onde eu tiro “tanto dinheiro pra esbanjar no shopping, nunca vi comprar tanta roupa...”. Pra me poupar da segunda situação esse-bilhete-não-é-o-que-você-está-pensando do final de semana, combinamos que ele levaria a mãe pra almoçar na casa da irmã e, de lá, iriam direto pro aniversário do Mauro.
Essa é a primeira vez em que não preciso criar um motivo razoável pra não acompanhá-lo nas festas da família dele (inventar a desculpa não significa deixar de ir. Ele sempre me convence de que vai ser muito desagradável ter que explicar pra todo mundo porque eu não apareci). Não que os parentes dele não sejam divertidos, muito pelo contrário. Aquele tio permanentemente bêbado que dá tapinhas na minha bunda sempre que passa por mim não me incomoda tanto quanto ter que agüentar todas aquelas primas patricinhas comentando o quanto é fora de moda a roupa de todos os outros convidados. ARGH! No último feriado que passamos com eles na praia, ganhei um apelido carinhoso do sobrinho de oito anos dele: POTRANCA!! Mas dessa vez eu venci. Assistir à dona Silvia contando pra todo mundo que eu ganho 50 por orgasmo, não! Essa, eu passo. Se ela não conseguiu guardar segredo sobre a surpresa que a cunhada fez pro marido, imagina se essa história não será contada à exaustão... Uma pessoa que solta um “Sônia, seu marido já usou o vibrador que você deu pra ele?”, em plena festa de Natal da família, não é nada confiável.
E foi assim que eu dediquei o domingo livre a uma atividade muito satisfatória: faxina no apartamento. O gato derrubou o balde de gelo cheio de flores na sala e brincou a noite inteira de ‘quem espalhar mais rosas picadas pela casa ganha um sorvete de chocolate’ (meu gato é a-lu-ci-na-do por sorvete de chocolate). Como ele conseguiu fazer toda essa bagunça sem se machucar nos espinhos? Aliás, que idéia absurda! Rosas num balde de gelo... De onde meu namorado tira essas invenções estapafúrdias?! Por que ele não colocou as flores nesse vaso lindo que a minha mãe deu, em vez de jogar as bugigangas que eu guardo no balde dentro dele? Inacreditáv... Pára tudo. Chega de reclamar. Ontem ele foi maravilhoso. Vou retribuir com uma noite inesquecível, no melhor estilo “matando o Michael Douglas de inveja”. Ele vai voltar pra casa muito orgulhoso de mim, já que o presente que eu comprei pro Mauro vai ser o mais original da festa (é claro que eu tive que comprar, escolher presentes não é a especialidade do meu namorado). Qual é a única coisa em que pensa um garoto de 17 anos? “177 Maneiras de Enlouquecer uma Mulher na Cama” é o presente perfeito! Com aquela família animada, vai ser a maior farra. Agora eu só preciso vestir o meu espartilho de renda que o enlouquece e esperar tomando um vinhozinho...

Ele

Eu digo que essa mulher é louca e as pessoas pensam que é exagero meu. Hoje mesmo, quando voltou da lavanderia, me contou que a faxineira da vizinha tinha feito uma piada com a situação toda do bilhete. Foi engraçado, então eu ri. Ri, oras. Sou uma pessoa normal, costumo rir quando acho graça de alguma coisa. Se ela riu junto? Que nada! Nem percebeu a graça. Ficou histérica, soltou seu já clássico "AAAAAAAARGH!" e foi para o quarto. Ficou um tempão lá, sem dizer palavra. Comecei a ficar com medo.
Antes que me chamem de covarde, é bom que eu diga que tinha razões para sentir medo: Uma vez tivemos uma briga feia e ela resolveu fazer greve. Devo ter ficado uns dez dias sem sexo. Mas isso é o de menos, quem nunca passou por um período de secura? O pior mesmo é que toda noite quando eu me deitava ela dizia:
-- Muito cuidado.
-- Cuidado com o quê?
-- Cuidaaaaado...
Brincadeira besta. Vejam só minha situação: ia pra cama com uma mulher e nem trepava nem dormia. E dez noites sem dormir, convenhamos, tem que ser faquir pra agüentar.
Enfim, eu precisava evitar que essa situação se repetisse. Estava pensando em como fazer isso quando bati os olhos no balde de gelo e fez-se a luz. Santo balde de gelo! Esvaziei seu conteúdo num potezinho de cerâmica de mau gosto atroz que fica na sala (presente da mãe dela) e corri para a floricultura.
-- Boa noite. Você acha que dá pra botar um arranjo de rosas champagne dentro disso aqui?
Notem minha sutileza: Rosas champagne num balde de gelo! Eu não sei de onde essas idéias me vêm. A moça da floricultura não deve ter percebido a engenhosidade da coisa, porque não esboçou reação, mas o arranjo ficou muito bom, e melhor ainda ficou o cartão que escrevi. Voltei para o apartamento, fechei as cortinas para criar um ambiente mais propício, arrumei a mesa com nossa melhor toalha. Pedi pelo telefone um caneloni de palmito e uma garrafa de Valpolicella. Enquanto o jantar não chegava, fui bater à porta do quarto com o balde de flores na mão.
-- Vai embora.
-- Trouxe uma coisa pra você.
-- Vai emb... Bonito.
-- Gostou? São flores champagne num balde de gelo, percebe?
-- É. Flores no balde. Estou vendo.
Eu coloquei o negrito na palavra enquanto falava, e mesmo assim ela não percebeu. Às vezes penso que preciso de uma mulher à altura da minha mente privilegiada. Mas não era hora para isso, precisava reconquistar minha garota para evitar suas ameaças noturnas, então permaneci firme.
-- Pedi aquele caneloni de palmito que você gosta. Levanta daí, vai.
Ela ainda relutou um pouco, mas só para não demonstrar fraqueza. Quando a comida chegou, já estava até falando comigo. Depois de duas taças de vinho, tudo voltara ao normal. Mas melhor mesmo foi a cara que ela fez quando abriu o envelope e tirou meu cartãozinho de dentro:


("Te dou cinqüenta reais se você me deixar te fazer goxar feito louca", minha letra é meio ruim de entender, eu sei.)

-- E aí, o que você me diz? Quer o dinheiro?
-- Mas sua mãe deve chegar daqui a pouco...
-- Bah, não sabe como é quando ela vem a São Paulo? Passa o dia todo com as colegas de bingo e só chega de madrugada.
-- Hum... Então acho que vou ganhar meu dinheirinho suado.
E foi assim nossa reconciliação. Perfeito demais, não é? Também achei. E não tardou a desandar.
Ainda estávamos no quarto (ela dormindo e eu recapitulando os passos da minha bem sucedida batalha) na hora em que minha mãe chegou com duas de suas amigas, todas meio altas, por volta da meia-noite.
-- Psiu! -- eu disse.
-- Hum...?
-- Você pegou o cartão?
-- Que cartão?
-- O cartão com o dinheiro.
-- Não. Deve estar lá na sala.
-- NA SALA???
Ainda pensei em ir até lá com o pretexto de cumprimentar as visitas e pegar o cartão. Mas quando já estava na porta do quarto, ouvi risos e minha mãe dizendo às amigas:
-- Bingo não tá com nada. Taí um jeito bom de ganhar dinheiro.
As velhas riram por horas. Espero que minha mãe use o dinheiro para pegar um táxi até o aeroporto, porque eu não saio desse quarto enquanto ela estiver aqui.

Ela

Que vergonha. Que vergonha. QUE VERGONHA! O imbecil do meu namorado me fez pagar o maior mico do universo. Pagar, no sentido literal da palavra. Que vergonha. Eu dei àquela japonesinha tímida da lavanderia em frente ao prédio um bilhete convidando-a para... como posso dizer de maneira suave... CHUPÁ-LA INTEIRINHA!! E o que é que ela estava trazendo naquela manhã? Entre outras peças, um sensualíssimo espartilho de renda (que ele não vai ver tão cedo!). Tentei explicar o mal-entendido ligando pra lavanderia, mas assim que eu me identifiquei, ela bateu o telefone na minha cara, não sem antes gritar uma frase num idioma intermediário entre o português e o japonês, cujas únicas palavras que eu entendi foram “lésbica” e “tarada”. Tomei um banho pra desfazer aquela escultura pós-moderna em que se transforma meu cabelo pela manhã, tomei um Gatorade (melhor remédio pra ressaca que eu conheço, e eu conheço vários...) e desci. O sorriso sacana que o porteiro me dirigiu indicava: ele e os moradores e comerciantes do bairro já deviam saber do bilhete. Expliquei a história ao desconfiado marido da moça, com a pequena platéia bastante atenta (três clientes e um balconista). Paguei e finalmente pude ler o tal recadinho:

Em situações constrangedoras, eu me transformo numa figura extremamente discreta: fico muito vermelha, mexo os braços enquanto falo e gaguejo. A única vez em que consegui evitar o vexame, foi num sábado à noite, após uma sessão lotada de cinema no shopping. Escorreguei na escada e desci quatro degraus de bunda, com aproximadamente 385 mil pessoas ao meu redor. Pra não ter que encarar toda essa gente me olhando e barrar a gargalhada que viria em seguida, fingi um desmaio. Fácil: fechei os olhos e fiquei imóvel. Meu namorado me carregou no colo até o ambulatório (que romântico!). Deitei naquela maca e pensei “Porra, como é que eu vou acordar?” Virei a cabeça lentamente de um lado para o outro, abri os olhos e sussurrei “O que aconteceu...?”. Ele contou como foi o acidente (detalhe: de um puta vexame, o tombo virou um acidente sério) e perguntou se eu conseguiria andar. “Acho que sim... me ajuda...”. Bom, ainda não tive coragem de contar que aquilo não foi uma brusca queda de pressão. Espero que, no dia em que ele souber, tenha o mesmo ataque de riso que teve quando contei o que a faxineira da Ana me disse enquanto subíamos pelo elevador: “Seu apartamento tá precisando de uma faxina? Cobro 50 reais, mas não precisa pagar em dinheiro não...”. AAAARGH!

Ele

Gosto de ajudar em casa. Gosto mesmo. Mas não faço muito, porque acho que ela não aprecia minha ajuda. Hoje, por exemplo, acordei e resolvi passar o aspirador de pó no apartamento. Estava precisando, a poeira já estava formando camadas geológicas. É sério, encontrei traças fossilizadas no meio do pó. Então botei um CD do João para tocar (aquele branco que tem Águas de Março, recomendo) e pus mãos à obra. Bastaram trinta segundos para a senhorita stress vir reclamar.
-- O que você está fazendo?
-- Caça submarina. Ora, o que eu estou fazendo! Estou tentando me livrar da poeira antes que ela se livre da gente.
-- Pelo amor de deus, parece que você está aspirando meu cérebro. Respeite minha ressaca.
Eu ainda ia argumentar, mas ela não estava com uma cara muito boa e fiquei com medo de ser assassinado durante o sono. Então desliguei o aspirador.
-- Vem cá, menina. Desculpe. Não sabia que você estava tão mal.
-- Que é isso, estou ótima! Meu crânio ficou apertado de repente e estou com um gosto na boca que parece que eu passei a noite lambendo uma maçaneta, mas fora isso estou bem.
-- Hum. Será que você não passou mesmo a noite lambendo uma maçaneta?
-- Sem graça...
Ela adora quando eu sou sem graça. Vejo isso em seus olhos. E acho até que ela deu um sorrisinho antes de voltar para o quarto. Eu continuei ouvindo o João e deixei o apartamento empoeirado como estava.
Acordou mais disposta horas depois.
-- Oi. Tá melhor?
-- A-han...
Manhosa. Bom.
-- Ah, que bom. Porque eu tava pensando em fazer uma coisa...
-- É? O quê?
-- Aquilo que eu escrevi no bilhete...
-- Hum? Que bilhete?
-- Você sabe que bilhete. Até tirou ele do balde de gelo.
-- Do que você está falando?
Apreensiva. Ruim.
-- Puxa, acho que você bebeu o suficiente para sair por aí lambendo maçanetas e coisas assim.
-- Ai meu deus... O que dizia o bilhete?
Muito bem, deixa eu explicar direito a história do bilhete. Era pra eu contar a história toda pra ela, mas comecei do fim e não tive mais tempo pra nada, porque a mulher endoidou. O negócio é que ela ia a esse casamento ontem. Odeio casamentos. Você tem que usar gravata em casamentos. E há crianças. Milhares de crianças. E velhas chatas. Enfim, odeio casamentos, ela sabe disso e nem insistiu para que eu a acompanhasse, mesmo sabendo que teria que aturar minha mãe e suas amigas de bingo. Aproveitando que a noite seria livre, resolvi beber com os amigos, coisa que eu não fazia há séculos. Liguei pra todo mundo na quinta-feira à noite, marcamos no bar de sempre após o expediente do dia seguinte. Sexta-feira pela manhã, saindo para trabalhar, lembrei de um detalhe: estava sem um tostão. Procurei pela casa toda e nada. Pensei em acordar minha cara-metade para perguntar se dispunha de algum, mas seu humor matutino me assusta um pouco. Quando estava a ponto de partir para o humilhante plano B (ir ao bar assim mesmo e fingir surpresa ao ver a carteira vazia quando viesse a conta), reparei no envelope dentro do balde de gelo. Aparentemente ela resolveu transformar meu presente em porta-bugigangas: chaves do carro, botões perdidos, moedas de um centavo, parafusos de origem misteriosa, tudo vai parar no balde de gelo (de prata!) que eu comprei com tanto carinho. Só que dessa vez nem me irritei tanto, porque dentro de um envelopezinho achei uma nota de cinqüenta reais. Cinqüenta reais! As moedinhas de um centavo deviam estar se mordendo de inveja. Peguei a nota e já ia saindo quando a idéia me ocorreu. Idéias brilhantes surgem na minha cabeça às vezes. Voltei, peguei uma folha do bloco de recados, escrevi um bilhete para ela, enfiei no envelope e botei o envelope de volta no balde.
Percebem? Nada de mais. Mas quando ela perguntou:
-- Ai meu deus... O que dizia o bilhete?
Em vez de contar a história direitinho do começo para o fim, dei uma resposta direta:
-- Você sabe. "Por cinqüenta reais eu te lambo inteira e te deixo toda molhadinha". Puxa, falando assim é meio constrang...
-- VOCÊ NÃO FEZ ISSO!
-- ...
-- O QUE É QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA?
-- ...
-- AI MEU DEUS DO CÉU!
Muito bem, vivendo e aprendendo. Eu não sabia que ela não gostava de ser lambida inteirinha.
-- O que a mulher da lavanderia vai pensar de mim agora?
-- Como assim? Eu pretendo tirar sua roupa antes, sabe?
-- AAAAAAAARGH!
Ela gritou assim mesmo. Juro. "AAAAAAARGH!". Deu pra ouvir até o agá do final. Pelo que eu entendi depois, o dinheiro que eu peguei era pra pagar a lavanderia. Quando a moça veio entregar as roupas, ela simplesmente pegou o envelope, enfiou na mão da moça, pegou as roupas e fechou a porta. Mas também, que mania besta de guardar dinheiro em envelope, caramba. Agora está lá no quarto tentando ligar para a lavanderia para explicar o que aconteceu.
E eu voltei pra sala e liguei o aspirador de novo para não ouvir a conversa. Porque sei que vai começar com "O imbecil do meu namorado" e eu não vou gostar.