Marco Aurélio

Oh, meu Deus. Acho que eu devia ter deixado o poodle em casa e mandado minha namorada para um spa ou algo assim. Seria mais seguro. Foi um choque chegar e dar de cara com ela parecendo o Coyote depois de mais uma perseguição frustrada ao Papa-Léguas. Tive que me esforçar para conter o riso ao ver aquela mulher toda estropiada vindo me receber na porta. Coitadinha, parecia tão frágil com aquela tipóia e o gesso no pé! E ainda ficou triste por não termos podido passar o Natal com a minha família. Toda quebrada, e preocupada com essas coisas... Ela pode ser um anjo de quando em vez.
E estava com uma mania nova também. Dá pra saber as estações do ano pelas manias dela. E a do verão é o Elton John. Quando fui para Porto Alegre, ela só conhecia Tiny Dancer, por causa daquela cena do ônibus de Quase Famosos. Não sei o que aconteceu durante minhas quatro semanas de batalha árdua por um contrato, mas quando voltei ela estava alucinada por Elton John. Skyline Pigeon, Goodbye Yellow Bricks Road, Rocketman, Your Song, tudo... Bom, não tudo. Pelo menos ela não fica ouvindo coisinhas chatas como Nikita ou Sacrifice, o que já é um alívio. Mesmo assim, é um exagero. Comprou CDs do cara. Dois DVDs. Fica procurando coisas a respeito dele na Internet. Até parou de me importunar com a velha história do aparelho ortodôntico: Agora diz que meus incisivos separados me deixam parecido com o EJ (que ela pronuncia i-djêi, é claro).
E eu nem posso reclamar da do Elton John. Se eu digo que hospedando o Monty já tivemos o suficiente de bicha inglesa pro resto da vida, ela rebate falando do meu repentino gosto por churrasco. Repentino... Eu sempre gostei de carne. SEMPRE. A viagem a Porto Alegre só acentuou um pouco isso. Digo que ela precisa ingerir proteínas, para acelerar a recuperação dos ossos. Claro que eu sei que ela precisa mesmo é de cálcio, mas é um mero detalhe. E, de qualquer maneira, nem essa demonstração de preocupação a comoveu: Depois de uma ou duas idas à churrascaria, começou a dizer que estava enjoada, que não podia nem olhar pra carne que embrulhava o estômago. "É cada desculpinha...", pensei.
E continuei pensando que fosse uma desculpinha, até uma madrugada em que ela pulou da cama e correu para o banheiro para vomitar.
- Tá tudo bem aí?
- Tá... Tudo bem... [ruídos]
- Tem certeza?
- Tenho.
Voltou para o quarto abatida.
- Você tá grávida.
- E você tá louco. Não começa com brincadeira.
- Não, sério. Você tá grávida. Esses enjôos...
- Nada a ver. Devo estar ruim do estômago, só isso. Se eu estivesse grávida,ia ter desejo de comer coisas esquisitas.
- Talvez isso comece mais tarde.
- Pára. Eu NÃO ESTOU grávida.
- Vai saber! E se seus desejos não forem de comer coisas esquisitas? Essa mania aí de Elton John, por exemplo. Ele é uma coisa esquisita...
- Ai meu Deus... Você quer tanto assim ser pai?
- Não é essa a questão. Estou só fazendo uma observação com base no que tem acontecido. Por que você não compra um daqueles testes na farmácia amanhã, só pra esclarecer isso de vez?
- Esclarecer o quê? Já disse que não estou grávida. Se estivesse, eu saberia.
- Saberia como?
- Intuição. Mulheres têm intuição.
- E homens têm raciocínio lógico. E agora meu raciocínio lógico está me dizendo que há possibilidade de você estar grávida. Compra o teste, vai.
- Se eu comprar o tal teste, você para de me importunar com isso?
- O que você acha?
- Acho que vai ser o único jeito. Mas vamos ter que fazer uma aposta. Se der positivo, você ganha. Negativo, eu ganho.
- Por mim tudo bem. Vamos apostar o quê?
- Oras, o quê! O de sempre...
- Sexo? OBA!
- Sabia que você ia gostar.
- Só tem uma coisa...
- O quê?
- Será que não vai fazer mal pra criança?
- Não enche, me deixa dormir.
Por mim eu passaria o resto da madrugada azucrinando com essa história. Mas o bom senso me fez parar. Não é bom abusar da paciência de gestantes. Pouco depois do almoço daquele dia, a conversa da madrugada já meio esquecida, o telefone toca. Ela. Chorando.
- Blbrfblnbntiiiiiiiiiiiiiivo!
- Calma, menina. Não tô entendendo nada. Respira fundo. Conta até dez. Caaaaaalma... Agora me fala.
- O teste deu positivo! [soluço]
- Teste? Que tes... O TESTE DEU POSITIVO???
- Eu tô grávida! [fungada]
- VOCÊ TÁ GRÁVIDA???
- Vai ficar repetindo tudo que eu falo?
- ...
- Você ainda está aí?
- Er... Tô. É que... Puxa!
- EU SEI! Vem pra cá!
- Estou indo.
Peguei minhas coisas e saí correndo do escritório. Correndo mesmo, esbaforido, e acho que estava com um sorriso besta na cara. Todo mundo me olhando, e eu nem aí. Como é que eu ia ligar pra coisas tão pequenas? Eu vou ser pai!

Ela

Dá para explicar com poucas palavras como é a minha vida: um carro desgovernado. Eu sou a maluca ao volante, tentando evitar um capotamento. Bom, olhando para a minha imagem refletida no espelho, parece que o acidente realmente aconteceu. Tentar enfeitar aquela gigantesca árvore de Natal (que só Deus sabe como consegui enfiar dentro de casa) foi mesmo uma péssima idéia. Não. Usar aquela escada centenária para isso é que foi a escolha errada. Ou melhor, inventar a brincadeira toda depois de três copos de uísque foi merecedor do Nobel da Estupidez. E eu que achava que não era praticante de esportes radicais... As conseqüências da aventura foram um ombro deslocado e o rompimento dos ligamentos do tornozelo esquerdo. Sem mencionar o Monte Everest que nasceu na minha cabeça. Nem a Marininha nem eu conseguimos explicar ao médico como esse desastre pôde acontecer na sala de um apartamento. As duas estavam bêbadas demais para lembrar de alguns detalhes, como por exemplo o que eu fazia com aquele sino no hospital. “Que sino?”. “Esse aí na sua mão”. Por algum motivo eu estava levando o sino que iria pendurar na árvore para a sala de raio X.
Pior que o gesso e a tipóia foi ter que passar quatro semanas sem meu namorado. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo sem nos ver. E o primeiro Natal separados desde que nos conhecemos. Mas eu não sou tão amarga a ponto de ignorar o lado bom das coisas. Finalmente não precisei almoçar com aquela família maluca! Tio tarado, tias fofoqueiras, primas esnobes e o pior tradicional-bolo-natalino-de-nozes do mundo. Feito por quem? Pela minha sogra, claro! “Aceita um pedaço de bolo, querida?”. “Não, obrigada. Eu estou de dieta e...”. “Ah, você não vai fazer essa desfeita pra sogrinha, vai? Hoje é Natal!” “É que eu...”. “Pega! Tá delicioso”. E lá vou eu empurrar aquela gororoba com dois copos de Coca-Cola. O clássico diálogo só seria diferente dessa vez por um detalhe. Ela seguramente ofereceria 50 reais para eu comer o bolo. Com certeza ela ainda não esqueceu o bilhete que encontrou em casa quando... ARRRGH! Eu não gosto nem de lembrar.
Meu namorado voltou de Porto Alegre no dia 30. Animadíssimo. Nem se importou de passar o réveillon assistindo à trilogia O Poderoso Chefão na cama comigo. Fechou um ótimo contrato com O SENHOR Darcy e aparentemente passou o resto do tempo comendo - engordou cinco quilos, todos na região abdominal. Ele voltou da viagem viciado em churrasco. Com o pretexto de comemorar a assinatura do contrato (ou qualquer outra coisa, como o bom comportamento do Poodle em um final de semana), já nos tornamos assíduos freqüentadores das churrascarias paulistanas. Ontem mesmo ele quis almoçar em um rodízio perto de casa mas eu joguei a toalha. Pra mim, chega. Já comi tanto que há quatro dias não consigo sentir o cheiro de comida sem enjoar.