Marco Aurélio

Panettone com maionese. PANETTONE COM MAIONESE! Eu mereço. E ainda se fosse só isso... O problema maior é que todas as mulheres parecem tirar do DNA um pacotão de conselhos assim que uma delas engravida. Como explicar, por exemplo, que a Marininha – que nunca sequer sonhou em ter filhos; nem irmãos tem – tenha se tornado de uma hora para outra a maior conselheira de gestação para minha namorada? E é cada conselho... As duas devoram as páginas de um livro, O Bebê na Era de Aquário. A Marininha tem verdadeira devoção pela autora, uma americana oxigenada de olhar aguado e sorriso enjoativo. E minha namorada embarcou nessa. Ciência? Ginecologia? Obstetrícia? Pré-Natal, Ultrassom? Para que tudo isso, se temos os astros para nos guiarem, não é mesmo? A depender da Marininha, saberemos o sexo do bebê de acordo com a fase da lua e o parto será feito por uma índia velha e sombria balançando um chocalho de cascavel. Já fico me imaginando desesperado na hora do nascimento, berrando "Toalhas! Água quente! MAIS ÁGUA QUENTE!" pela casa. Daqui a pouco vão dizer que o bebê é obra da cegonha, e não minha.
Agora tinha outra preocupação, no entanto: panettone com maionese. E onde é que eu ia encontrar panettone dois meses depois do Natal, meu Deus??? Sei que rodei a cidade e acabei encontrando uma bombonière que tinha um estoque imenso de panettones encalhados. E é claro que a loja ficava a um quarteirão do escritório onde trabalho. Que graça teria a vida sem essas ironias, não é mesmo? Lá fui eu para minha casa, triunfante, seis panettones (leve três, pague dois – eu não podia perder essa) e um frasco de maionese na mão. Sentia-me como Ulisses voltando para casa e para os braços de sua amada. Só que minha Penélope não parecia muito disposta a colaborar:
– Hum – disse ela, depois de passar uma enorme quantidade de maionese numa fatia de panettone. – Não é tão bom quanto eu imaginei.
– Como assim, não é tão bom? O que você imaginou?
– Ah, sei lá. Achei que tivesse um gosto mais assim de... De... Ah, sei lá. Achei que fosse mais gostoso. Feito quindim com requeijão.
– Quindim com requeijão??? Isso é bom?
– Não sei. Deve ser, né?
– Ai meu Deus...
– Hum... Quindim com requeijão... Eu preciso comer quindim com requeijão.
– Não precisa nada.
– PRECISO! Senão nosso bebê vai nascer com cara de quindim com requeijão.
– Aí a gente manda ele pro circo.
– Rá, rá... Bobo. Vem cá.
– Pra quê...?
– Vem cá, oras.
– Hum...
– Fala com ele.
– Hein?
– Fala com o bebê.
– Como é? Falar com o bebê?
– É. A Marininha disse que é importante a gente falar com ele. Faz bem para o desenvolvimento da criança.
– Pode ser, menina. Mas não agora. Você está no segundo mês de gestação. Ele ainda não pode ouvir, é só um girino.
– Girino????
– É... – alerta vermelho.
– Você está dizendo que o MEU bebê é um GIRINO?
– Bom, não é bem um girino. Assim, não propriamente dito. Ele só se PARECE com um girino, mas não é um girino. Não se preocupe, ele não vai virar um sapo. Hehe.
– SEU INSENSÍVEL! Você não se importa, você nem quer saber, fica falando que o meu bebê é um... um... um GIRIIIIIIIII...
E desatou a chorar. Tentei consolá-la como pude, o que não foi fácil. Ela dizia que eu não a amava nem ao bebê. Que ia abandoná-los. Meu Deus! E eu que pensava que já conhecia todas as variações de humor possíveis. Bobagem! Grávida ela está ficando mais instável ainda.
E amanhã a família dela vem aqui para o almoço em que comunicaremos a gravidez. Sei não, sei não. Maus pressentimentos.

Como diria Woody Allen, “I panic!”. Eu sei que devia consultar um ginecologista antes de ter certeza, mas a Marininha, a Jô, a Denise, a Jennifer e até a filha de doze anos do zelador acham que os dezesseis testes de farmácia terem dado positivo significam que SIM, EU ESTOU GRÁVIDA!!! Quando o último teste deu positivo, eu tive um ataque de choro sem precedentes. As meninas pegaram o telefone e discaram o número do celular do meu namorado, porque eu não conseguia lembrar nem em que cômodo da casa ficava o telefone... Apesar de ter ensaiado um infarto, ele até que recebeu bem a notícia. Aliás, o projeto de Robério de Ogum já desconfiava da minha gravidez. Aparentemente, homens também têm intuição – o que destrói a minha teoria de que eles só usam a sensibilidade para descobrir se a viscosidade do óleo do carro indica o momento da troca.
Quando meu namorado chegou em casa – com duas caixas do meu bombom favorito – tive outra crise de choro. As meninas já tinham ido embora e só o Poodle e o Gato me faziam companhia. O Gato reagiu com bastante indiferença à notícia. Já o Poodle resolveu comer um dos meus tênis para comemorar. Meu namorado e eu fomos jantar fora. E eu descobri que jantar italiano sem vinho consegue ser mais sem graça do que panettone sem maionese. Hummm... panettone com maionese..... Eu PRECISO de panettone com maionese!!!
Nesse final de semana eu vou organizar um almoço em casa para contar para a minha família sobre a gravidez. Isso se eu conseguir trancar a Marininha no guarda-roupa para impedir a divulgação imediata da notícia. Ontem ela saiu de casa com o mesmo brilho no olhar que aparece quando ela diz “menina, eu tenho uma bomba pra te contar!!”...