Marco Aurélio

-- Eu sou uma IDIOTA!
Foi o que ela disse quando eu perguntei por que estava chorando. E me contou o que acontecera. Depois que ela terminou, minha vontade era ir até aquele escritório e sair quebrando todos aqueles equipamentos que ela sempre disse que eram caríssimos, roteadores e não sei mais o quê. E então entraria na sala daquele boçal e o faria comer uns bons pedaços de carpete enquanto chutava sua bunda gorda. Todos os funcionários me ajudariam na malhação do judas, e depois o enforcaríamos na... Mas minha namorada precisava da minha atenção, não podia me perder nessas divagações. Fui pegar um copo d'água para ela, que estava arrasada. Apesar do salário não ser grande coisa, ela gostava daquele emprego. Meses atrás, no entanto, houvera uma mudança na diretoria. Na época ela disse que não tinha ido com a cara do novo presidente. E agora sabíamos porquê.
Meu salário seria suficiente para manter o apartamento por algum tempo, se cortássemos alguns luxos, como TV a cabo e internet rápida. Mas não adiantaria falar nada disso para ela: Estava deprimida, preocupada, com medo. Ficar racionalizando a situação só pioraria tudo. Então, em vez de racionalizar, peguei o quadro de camurça onde botamos nossas fotos, um mapa grande do Brasil e meu jogo de dardos. Dependurei o quadro com o mapa na parede e entreguei os dardos na mão dela, que me olhava como se eu tivesse ficado maluco.
-- Era melhor você colocar aí uma foto daquele... daquele...
E lá ia ela chorar de novo. Meu Deus.
-- Nada disso. Você vai jogar os dardos para escohermos o destino da nossa viagem.
-- Que viagem?
-- Ué, estou de férias, você está desempregada. Somos dois vagabundos. Vamos viajar.
-- Mas... Mas...
-- Vai, menina, joga esse negócio. Vi isso num filme uma vez, sempre quis fazer. A gente vai para onde ele cair, não importa onde seja. Que tal?
Isso a fez ficar mais animada: Ajeitou-se no sofá, fez pontaria e jogou. Fui olhar onde o dardo havia caído.
-- Pois muito bem, vá se preparando, porque nós vamos partir para... Deixa eu ver... Hum. Osasco.
Ela pôs o rosto entre as mãos e começou a rir. Bom sinal.
-- Acho que é melhor eu tentar de novo, né?
-- Por favor!
Ela jogou o segundo, mas ainda estava no meio da crise de riso, então o dardo bateu na moldura do quadro e caiu no chão, o que a fez rir ainda mais. Depois de uns minutos rindo, conseguiu controlar-se e jogou o terceiro dardo, que caiu perto de Assunção, no Paraguai.
-- Esse não valeu. Não temos dinheiro para uma viagem internacional.
Piadinha besta, ela não riu. Jogou outro dardo, que fincou-se no acento circunflexo do Oceano Atlântico. Vi o desânimo voltar ao rosto dela.
-- Eu sou uma burra, tá vendo? Nem pra isso eu sirvo. Nem pra acertar um lugar decente num mapa. DROGA!
Jogou o último dardo com raiva. Quase derrubou o quadro da parede quando atingiu o mapa. Desconsolado com o fracasso de uma idéia que parecera tão boa, fui recolher minha tralha e não acreditei no que estava vendo.
-- Até que você não é tão burra assim, sabia?
-- Hein?
-- Arruma as malas. Vamos para a Bahia. Ilhéus.
-- MENTIRA!
-- Pode olhar.
Não digo que ela tenha ficado radiante na hora. Ainda estava sob o impacto de tudo o que acontecera. Mas quando sugeri que fôssemos de carro, sem pressa, parando onde nos aprouvesse, ela quase me sufocou com tantos beijos e abraços. Aquela foi uma noite memorável. Amo essa mulher.
Dois dias depois, já com o Poodle e o Gato hospedados num hotel para animais (com uma diária quase tão cara quanto a da pousada em Ilhéus), as malas prontas e o carro revisado, pegamos a estrada. Quando entramos na Dutra, o rádio começou a tocar Tim Maia:

Ora bolas, não me amole
com esse papo de emprego
Não está vendo? Não estou nessa
O que eu quero? Sossego.


Um bom sinal..

Ela

Eu não sou uma pessoa agressiva. Sou contra qualquer forma de violência, com exceção de palavrões e gestos obscenos no trânsito, que são perfeitamente aceitáveis. Tirando aquele tapa que dei na cara do meu ex-namorado, mesmo porque o cretino revidou e a minha agressão foi automaticamente anulada, eu nunca bati em ninguém. Agüentei calada todas as brincadeiras a respeito da minha “corajosa” performance na festa do Jair. Ignorei as cantadas inofensivas dos mais atrevidos. E para minha surpresa, até ri quando voltei do almoço e encontrei cotonetes sobre o teclado do meu computador. Tudo em nome do bem-estar social naquele escritório. E do meu salário no final do mês, claro. Mas nada, NADA, vale mais que o meu orgulho. Ok, meu pai deu uma força na minha contratação por ser amigo do vice-presidente da empresa, mas eu sou competente e mereci cada centavo que recebi nos últimos anos. Quando a secretária do presidente mandou me chamar, fiquei tranqüila. Tinha certeza que ele reclamaria do atraso, mas eu já tinha umas duas ou três desculpas convincentes escondidas na manga. Entrei na sala preparada para ouvir discursos sobre a pontualidade de funcionários exemplares e quase caí dura quando ele mencionou a promoção. Eu estava de olho naquela vaga havia meses. Ela era perfeita para mim e eu para ela. Amor à primeira vista. Só não esperava que fosse acontecer daquele jeito.
“A senhora estava ótima naquele vídeo” – socorro!! - “Pena que não dá pra ver direito”. Eu podia sentir centenas de mariposas voando dentro do meu estômago. “Seria uma cena bastante interessante de se ver pessoalmente...” e começou a demonstrar sua dúvida sobre a pessoa certa para a vaga. A pele do meu rosto queimava. Devo ter ficado roxa de raiva. Ou beterraba, já que essa cor tem me perseguido ultimamente. “Prestenção (meu namorado fala sempre isso)! Eu nunca me humilharia por cargo algum. Ainda mais com um homem nojento como você. Escuta aqui, seu bastardo, um cotonete é mais atraente do que você!”. Nada disso saiu da minha boca, claro. Eu sou do tipo que fica nervosa e não completa uma frase sequer. Ao invés disso, derrubei o café quente que estava na mesa sobre o colo dele. “Oops”. Tão desastrada...
Saí da sala dele direto para o Recursos Humanos. Pedi minha demissão e fui arrumar minhas coisas. Quando cheguei em casa a ficha caiu. Onde diabos eu estava com a cabeça?? Devia ter fingido que não entendi nada e mantido meu emprego. E agora, o que é que eu vou fazer da minha vida? Droga, meu liqüidificador interno está funcionando na velocidade máxima. Eu sou uma... uma... ARRRRGH!!