Marco Aurélio

Depois da cena ridícula no apartamento e do strip-tease na festa, achei que nunca mais aquela roupa de bombeiro fosse me fazer passar vergonha. Bah! Maldito seja o Jair com seus brinquedinhos tecnológicos. Ele filmou a presepada toda com aquela camerazinha, depois fez um negócio lá pra passar o vídeo para o computador (minha namorada me explicou depois como se faz isso, não guardei uma palavra) e mandou por e-mail para "algumas" pessoas. Essas cinqüenta ou sessenta pessoas repassaram o e-mail com o vídeo, e agora o mundo inteiro está vendo as peripécias do Bravo Bombeiro e sua Carismática Cotonete.
Segundas-feiras já não são particularmente agradáveis. A segunda-feira depois da festa foi pior ainda, com o vídeo rodando todo o escritório e eu tendo que agüentar comentários engraçadinhos. É bonito de se ver o quanto acontecimentos assim são fatores de união entre as classes: Desde o diretor até o boy, ninguém foi privado do direito de rir da minha cara. Maravilha. A situação estava insuportável. Eu ia acabar voltando do almoço com uma metralhadora na mão e um sorriso iluminando o rosto. O resto estaria no plantão do Jornal Nacional, com aquela musiquinha de tragédia. Para evitar a catástrofe, inventei que tinha que visitar um cliente depois do almoço e fui embora.
Chegando em casa, assisti mais uma vez ao Entrando Numa Fria, aquele filme com Ben Stiller e Robert De Niro, para pelo menos ter o consolo de ver alguém passando por mais situações embaraçosas do que eu. Confesso que não consegui rir muito. O filme já estava no final quando ela chegou.
-- Ué, veio mais cedo pra casa?
-- É. Fugi do trabalho para não morrer.
-- Ai meu Deus... Gripe de novo?
-- Não. O vídeo. Você viu o vídeo?
-- Não. Que vídeo?
-- O desgraçado do Jair filmou nossa performance na festa, passou para o computador e...
-- Ah, eu vi isso. Ele filmou com a câmera digital e depois conectou o balangandã no estrogonofe, fazendo um vibrafone de moluscos em ré menor. -- Não foi nada disso que ela falou, mas algo igualmente sem sentido para mim -- Aí depois foi só mandar por e-mail.
-- E você está aí, com essa cara tranqüila?
-- Ué, pelo menos ninguém notou a cor do meu cabelo debaixo daquela peruca branca.
-- ARGH! -- berrei, que também tenho esse direito.
As mulheres têm uma forma estranha de encarar os fatos. Parece que tudo, no fim das contas, está relacionado à estética. Acho que se um dia seres extraterrestres resolverem fazer contato, a maior preocupação delas será com a escolha de roupas para a ocasião.
-- Veja bem, querida: Esse deve ser o clímax da História, o ponto culminante de toda a Civilização. Finalmente podemos afirmar com absoluta certeza que não estamos sozinhos. É hora de questionarmos nosso papel no grande Drama Cósmico.
-- Sei, sei... E o que você acha, vestido verde ou... Um pretinho básico?
-- Pelo amor de Deus, será que você não percebe que o que está acontecendo é uma revolução em todos os sentidos?
-- Revolução, é? Hum, então acho melhor usar algo mais ousado...

É espantoso. Enquanto eu me descabelava pensando em tantas pessoas me vendo rebolando de cueca, ela se dava por satisfeita por não mostrar seus cabelos de beterraba. É como eu sempre digo, vá o diabo entender as mulheres.
Na terça-feira, fui trabalhar com medo. Muito medo. Imaginava equipes de rádio e TV, repórteres de todos os jornais e revistas, fotógrafos, todos à caça da mais nova celebridade da internet, o Bombeiro Stripper. Representantes da TFP estariam protestando em frente ao prédio. Os bombeiros de verdade estariam lá também, com os brios da corporação feridos por aquela palhaçada, e dispostos a lavar sua honra. Ia ser um inferno. Preciso aprender um jeito de domar essa minha imaginação doente, porque quando ela dispara dá nisso. É claro que quando eu cheguei estava tudo como sempre. Aliás, nem tudo.
-- Bom dia, bombeiro...
Fabi, a recepcionista. Cabelos louros até o meio das costas, olhos azuis, uma delícia. Sonho de todos os homens do escritório. Olhando para mim com aquela carinha de safada. Ó, Deus, como é difícil ser fiel nesse mundo cheio de tentações! Mas consegui manter a compostura: Respondi com um "Bom dia" seco, e tenho quase certeza de ter ouvido um suspiro quando atravessava o corredor.
E essa foi minha rotina por todo o dia. Esgotadas as molecagens dos homens, era vez de ouvir os comentários femininos a respeito do bombeiro. Comentários muito favoráveis, eu diria. A menina da contabilidade, Andreza, chegou a me perguntar se eu já pensara em seguir a carreira de dançarino. Respondi que sim, claro, já estava até fazendo um estágio no Clube das Mulheres, além de trabalhar como voluntário no Corpo de Bombeiros nos fins-de-semana. Ao contrário do dia anterior, não estava me importando nenhum pouco em ser o pateta do escitório. Mal via a hora de chegar em casa e despertar o furor ciumento de minha namorada falando sobre o sucesso do valente soldado do fogo entre as colegas de trabalho.
Findo o expediente ("Até amanhã, Fabi", "Tchau, lindinho"), fui para casa pensando nisso e nas minhas férias, que começariam na semana seguinte. Não poderia viajar, já que nossas férias nunca coincidem, mas pelo menos poderia passar vinte dias brincando com o Poodle e o Gato, infernizando minha namorada investido de meu novo papel de terror das mulheres, e talvez até ensaiando uns passos para aprimorar meu desempenho no palco. Mas meus planos começaram a mudar quando abri a porta e me deparei com ela sentada no sofá, chorando entre montanhas de lenços de papel.

Ela

Sucesso absoluto! O Temível Cotonete Gigante, ou melhor, a Temível Cotonete Gigante foi um sucesso. Aliás, meu namorado e eu fomos o casal-atração da festa. Ele como o homem pronto para apagar o fogo das mulheres e eu como o cotonete mais desejado da História. As odaliscas, índias, pedritas, garotas superpoderosas e outras piranhas olhavam para ele com uma certa malícia que ele parecia não perceber - para meu alívio. Os homens queriam saber o que aquele bombeiro desengonçado havia feito para deixar as garotas tão fascinadas. Resultado: só se falou nisso na casa do Jair. As mulheres perguntavam onde eu tinha conseguido um namorado “tão dedicado assim...” (vacas!) e os homens se aproximavam com cantadas do tipo “oi, sou todo ouvidos...” ou “humm... que haste flexível” (fofos!). Meu bombeiro particular sempre dava um jeito de cortar a conversa de alguma maneira sutil, como disparar o extintor de incêndio, e eu mandava meu olhar eu-vou-matar-você. Ele nem sonha que no fundo adoro quando ele vem me proteger...
A certa altura, voltando do banheiro, vi que ele ia em direção ao palco. Não acreditei quando percebi que meu namorado estava prestes a fazer um strip-tease na frente de todos os convidados. Corri para a frente do palco para ver de perto aquele espetáculo. Foi melhor que todos os garotos do Clube das Mulheres, com exceção daquele marinheiro loiro que... enfim, parecia um profissional! Saímos do palco direto para o apartamento. Precisávamos terminar o show com mais privacidade. E terminamos. Três vezes.
Passamos o domingo na cama, vendo filmes. Os quatro. Com o frio ela é o lugar da casa preferido do poodle e do gato também. Desligamos os celulares, tiramos o telefone do gancho e nos escondemos sob o edredon quando tocaram a campainha. Muita pizza, guaraná, brigadeiro na panela, pipoca, chá e pizza com guaraná de novo o dia todo. Dia perfeito. Eu estava espiritualmente pronta para encarar mais algumas horas no salão, na tentativa de desfazer a piada de mau gosto em que se transformara meu cabelo. E foi o que eu fiz. Cheguei pouco antes do horário de almoço no escritório e encontrei um post-it do seu Fulvio colado no meu monitor, pedindo a minha presença em sua sala IMEDIATAMENTE!!! Em letra maiúscula e com três pontos de exclamação mesmo. “Seu Fulvio...”. “Entra e senta”, sem tirar os olhos do monitor. Pensei “se ele começar a gritar eu levanto e vou embora”. Ele olhou para mim, olhou de novo para o monitor, extremamente sério, de novo para mim e mandou “se a senhora negar será despedida!”. Virou o monitor na minha direção e antes que eu conseguisse enxergar direito o filminho na tela, reconheci a música que saía das caixas de som: Light My Fire, do Doors. Nunca vi meu chefe rir tanto. Passei o resto do dia ouvindo gozações dos funcionários da empresa sobre o cotonete gigante que abriu o zíper da calça do bombeiro com a boca. Pelo menos um consolo eu tive: ninguém notou aquela meia dúzia de fios beterraba que escaparam da peruca.

Marco Aurélio

Essa mulher me diverte. Aquele cabelo cor de beterraba, meu Deus! Eu não queria rir, as mulheres são muito suscetíveis a esse tipo de coisa. Mas, puxa vida, o cabelo dela estava engraçado demais! Achei que fosse uma piada, não um infeliz acidente. Ainda mais no dia da festa do Jair, pensei tratar-se de algum tipo de tintura temporária para completar a fantasia. Só depois lembrei que Branca de Neve tinha cabelos de uma coloração normal, nada parecido com aquele tom de Tang de uva.
Enfim, quando percebi que o negócio era mesmo sério, resolvi que era melhor tentar ajudar. Sugeri várias fantasias que completariam bem aquele cabelo, mas ela começou a se enfurecer com isso. Esgotadas as possibilidades, e já muito perto da hora da festa para sair à procura de lojas de fantasia, apelamos para o Temível Cotonete Gigante.
Faz-se necessário explicar que na época da primeira festa do Jair eu ainda não era dotado do senso de ridículo apurado que tenho hoje. Então comprei pantufas brancas, um macacão azul e uma peruca black power nada discreta. Tingi a peruca de branco e voilá: Estava pronto o Temível Cotonete Gigante. Fui o destaque da festa, e a fantasia de cotonete foi a desculpa perfeita para algumas cantadas picantes, todas fracassadas. Acabei arrumando companhia para aquela noite apelando para o absoluto nonsense: Disse à garota que eu era muito flexível, que o meu algodão não largava fiapos nem soltava da haste, além de receber tratamento antigerme; tudo isso no tom de voz que os ricos devem usar para falar de suas mansões, carros importados, iates, contas na Suíça. Ela riu muito e eu pensei, "Tá no papo". Continuou rindo durante todo o caminho para o meu apartamento. Ao chegarmos, se jogou no sofá, ainda rindo. Fui pegar um uísque para ela, e quando eu entrei na sala com os copos na mão, aí que ela teve um ataque de riso sério mesmo, quase morrendo engasgada. Deve ser mesmo muito engraçado ver um cotonete servindo drinques. Sei que ela riu tanto que a noite foi um fracasso absoluto, e a fantasia de cotonete foi relegada ao limbo do fundo do armário. E ali permaneceria para sempre, mais uma de minha coleção de lembranças constrangedoras. No entanto, frente ao impasse causado pelos cabelos fúcsia de minha namorada, o Cotonete Gigante surgiu como salvador da pátria. A Senhorita Não-Pago-Mico relutou em aceitar a fantasia, mas não demorou para se dar conta de que não tinha alternativas. Quanto a mim, foi fácil: A roupa de bombeiro finalmente serviria para alguma coisa além de me fazer passar vergonha na frente dos amigos. E lá fomos para nossa festa, o valente soldado do fogo e sua namorada de hastes flexíveis. Ridículo.
A cada festa do Jair eu me espanto mais com minha capacidade de desconhecer pessoas. Na primeira festa eu conhecia todos os convidados. De uns anos para cá, porém, sinto-me cada vez mais deslocado. Na festa do ano passado acho que eu só conhecia mesmo a minha namorada, o próprio Jair, a Marininha e mais uns dois ou três. Mas a festa de ontem foi como um retorno aos velhos tempos: Desconhecidos me cumprimentavam efusivamente, me abraçavam, me apresentavam a outros desconhecidos. Fiquei sem entender nada até que um japonês gordinho perguntou para o Jair se eu era o cara da história.
-- Que história, Jair?
-- Da roupa de bombeiro, oras. Contei para os primeiros que chegaram, e parece que gostaram muito, porque a história se espalhou. Sorria, você está sendo famoso!
O Jair acha que é engraçado trocar palavras de frases batidas. E acha mais divertido ainda difamar seus amigos perante desconhecidos. No fim da festa, eu já havia contado minha versão umas cem vezes, com todos os detalhes da ida da minha namorada ao Clube das Mulheres e do passeio de carro para arejar a cabeça que acabou levando à idéia do uniforme de bombeiro. Da mesma forma que na primeira festa, fui o centro das atenções. Mas dessa vez de uma forma bastante incômoda, primeiro porque não estava fazendo sucesso pela fantasia em si, e segundo porque agora tenho senso de ridículo, demais até.
Enquanto eu sofria a tortura de me expor à chacota pública, minha cara-metade circulava com desenvoltura enfiada em sua fantasia de cotonete. Muitos engraçadinhos se aproximaram dela. Eu olhava feio, mas quem é que levaria a sério o cara da história do bombeiro? Aquilo foi me irritando, então quando a vi conversando com três babacas, e ainda rindo feito boba das piadas estúpidas deles, não agüentei mais: Cheguei perto e "sem querer" disparei meu extintor de incêndio. Ela me fulminou com o olhar, mas não importa, os três foram embora. Para os meus padrões de bêbado (sim, porque já havia enxugado alguns copos), disparar o extintor fora uma atitude bastante madura e máscula. E mais maduro e másculo ainda me mostrei quando o Jair anunciou no microfone:
-- Atenção! Em homenagem ao nosso amigo bombeiro, vamos ouvir agora The Doors, Light My Fire!
Sorri amarelo quando a música começou
(You know that it would be untrue)
Sentia como se estivessem todos olhando para mim.
(You know that I would be a liar )
E talvez estivessem mesmo.
(If I was to say to you )
-- Sobe no palco! -- gritou alguém.
(Girl, we couldn't get much higher)
E até que não me pareceu má idéia
(Come on baby, light my fire)
Comecei a me dirigir ao palco, sob aplausos
(Come on baby, light my fire)
-- DANÇA! -- berrou outro gaiato.
(Try to set the night on FIRE!)
Comecei a dançar. Desajeitado no começo, fui me soltando. O povo me ovacionando, todo aquele álcool na cabeça, aquele som sensual dos Doors... Acho que acabei fazendo um strip-tease. É, fiz mesmo. As pessoas aplaudiam e gritavam enquanto eu ia desabotoando a roupa. Quando estava só de calça e quepe, me lembrei de procurar minha namorada com os olhos. Esperava encontrá-la longe do palco, com cara de sexo-nunca-mais. Para minha surpresa, ela estava logo ali na minha frente, batendo palmas e gritando "Gostoso!", "Tesão!". Deus, eu amo mais ainda essa mulher quando ela está bêbada. Chamei-a ao palco para me ajudar com o resto das roupas.No final era uma cena linda de se ver: Uma mulher vestida de cotonete sendo levada de cavalinho por um bombeiro de cuecas e quepe. Alguns convidados chegaram mesmo a pedir bis, mas não foi possível: Saímos pela porta dos fundos e voltamos para casa, para um bis particular e bem mais completo que o show original.

Ela

Um antropólogo diria que os moradores desse apartamento se dividem em dois grupos distintos: o dos que sabem perfeitamente onde fazer xixi e o dos que têm uma certa dificuldade nesse quesito. O gato e eu pertencemos ao primeiro grupo. No segundo estão meu namorado e o poodle, cujo nome agora é Poodle. Depois do ataque do bastardo aos meus sapatos, meu namorado assumiu a “paternidade” do bicho e ganhou um aliado. O cachorro passou a me ignorar e vive seguindo-o pelo apartamento. Para irritá-lo comecei a chamar aquela bolota-de-pêlo-saltitante de Poodle, já que ele odeia essa raça. A provocação não funcionou. O nome pegou e agora eu não só limpo os respingos de xixi no vaso sanitário (meu namorado e sua péssima pontaria) como também lavo o chão do banheiro diariamente. Não é que o poodle aprendeu a fazer xixi no banheiro para imitar seu mestre?! Até que a cena do cãozinho fazendo o vaso de poste seria fofa se não resultasse naquela poça de xixi no chão do banheiro (pelo menos os passeios de final de tarde resolvem o problema do cocô).
Tudo isso seria de grande relevância se não fosse minha última experiência desastrosa no cabelereiro. Aceitei a dica de um salão “tu-do-de-bom” da Marininha para mudar o visual. Nunca tive medo de cabelereiro, contrariando a regra feminina. Homens têm medo de dentistas e de injeções (sem mencionar o problema da calvície, o que seria sacanagem da minha parte...) Mulheres têm medo de cabelereiros e depiladoras. Marquei hora no final da tarde de sábado, pouco antes da festa anual do Jair. Todos os anos ele reúne os amigos “íntimos”, como ele diz, para uma festa à fantasia. Algo em torno de quinhentos a seiscentos convidados. Dessa vez aluguei um traje completo de Branca de Neve, com direito a saia longa e capa. Tudo para evitar o vexame do ano passado, quando ignorei os conselhos do meu namorado de que Coelhinha da Playboy não era uma boa escolha e passei a noite ouvindo comentários a respeito do meu belo rabinho. Isso sem falar no frio.
Quando entrei no salão percebi o que a Marininha quis dizer com “tu-do-de-bom”. O cabelereiro era um moreno de olhos verdes que de tão charmoso fazia George Clooney parecer sem-graça. “O que você está pensando em fazer?”. “O que você achar melhor...”. Não dava para raciocinar e olhar para ele ao mesmo tempo. “Vamos escurecer alguns tons e manter o corte?” “Ok...”. Várias edições de Caras depois o resultado não poderia ter sido pior. Beterraba. Eu fiquei com a cabeça parecendo uma beterraba cabeluda. Sem tempo para mudar, fui para casa emburrada e disposta a raspar careca se não conseguisse um salão aberto na segunda-feira bem cedo para consertar aquele atentato terrorista.
Abri a porta e meu namorado já estava pronto, me esperando. “Que aconteceu com seu cabelo??”. Arrrgh! Vesti a fantasia e ele entrou no quarto, segurando a risada. “Vai de Roxa de Neve?”. Definitivamente não. “Já sei! Bota um vestido vinho e vai de Suco de Beterraba!”. Já estava disposta a passar as próximas 36 horas trancada no quarto quando ele disse que daria um jeito. Apareceu com um macacão azul claro, pantufas brancas e uma peruca de pelúcia branca que ele tinha guardado da primeira festa. E lá fomos nós para a festa do Jair. Um bombeiro e um cotonete gigante.

Marco Aurélio

Existem várias maneiras de se ter um despertar desagradável. O de todo dia, por exemplo, com aquele TUÉN-TUÉN-TUÉN do rádio-relógio é particularmente ruim. Balde de água na cabeça também não deve ser muito legal. O telefone toca de madrugada e é engano: Terrível. Mas nada, nada mesmo, deve ser pior do que ser acordado com sua boca sendo lambida por um poodle. E eu, inocente, achando que minha namorada, num súbito ataque de romantismo, resolvera me acordar aos beijos. Abri os olhos, vi aquela coisinha felpuda em cima do meu peito.
-- FILHO DA PUTA!
-- Que foi??? -- perguntou ela, e não o poodle, ainda bem.
-- Esse cachorro desgraçado estava me lambendo!
-- E daí?
-- Como assim, "e daí"? Ele estava lambendo minha boca!
-- Ah, como você é chato! É só um cachorrinho...
-- Cachorrinho, cachorrinho... É um poodle!
-- E os poodles são...?
Nem respondi, saí bufando do quarto para escovar os dentes e despejar meio frasco de Listerine na boca. É cada pergunta... Poodles são coisinhas estressadas com voz aguda e pompons. E agora tenho uma dessas coisinhas na minha casa. O que meus amigos vão pensar, meu Deus?
Minha última esperança era o gato. Gatos são animais de personalidade, não gostam de ter seu território invadido. Pior ainda se o invasor for um cachorro, já que cães e gatos são inimigos naturais, certo? Errado! O encontro entre os dois foi decepcionante: Enquanto o poodle demonstrava sua curiosidade diante do gato, este o ignorava solenemente. Agora, enquanto o bicho mastiga o tapete ou sai arrastando meus sapatos pela casa, minha namorada o observa com ternura, enquanto o gato mantém aquele ar superior e condescendente que os gatos têm.
-- E aí, o que a gente vai fazer com esse cachorro?
-- Hein?
-- O que a gente vai fazer com o poodle?
-- Oras, o que as pessoas fazem com os cachorros?
-- Depende, ouvi dizer que os chineses mandam pra panela.
-- Sem graça... A gente vai criar o bichinho, ué.
-- Criar? Aqui???
-- Não, na Catedral da Sé. Claro que é aqui.
-- Mas... Mas vai dar trabalho!
-- Você também dá trabalho e está aqui até hoje.
-- Eu não faço xixi no tapete!
-- Porque eu não deixo. Além do mais, quando foi que ele fez xixi no tapete?
-- Mera questão de tempo.
-- Não seja rabugento. Gosto do Monty.
-- Que que o namorado do seu primo tem com isso???
-- Não estou falando dele. Resolvi botar esse nome no cachorro.
-- Você botou um nome nesse bicho? Por quê? O gato é bem mais legal e não tem nome!
-- O nome do gato é Gato.
-- Ai meu Deus... Então por que o nome do cachorro não pode ser Cachorro?
-- Por que eu não falo "Amigo Meio Bêbado do Meu Namorado" em vez de Jair? Ou "Minha Amiga Com Problemas de Relacionamento" em vez de Marininha? Ou então "Meu Namorado Chato Que Odeia Os Bichinhos" em vez de...
-- ... Tá, tá, já entendi. Eu desisto, pode ficar com seu cachorro.
-- Eu sabia que você ia concordar. -- Beijo -- Te amo.
-- É. Também te amo. E chega de discussão, que já vai começar a final do campeonato de vôlei.
-- Hum... Campeonato de vôlei, é? Que tal uma aposta igual aquela do futebol?
-- Aposta? Mas vôlei não termina zero a zero e... Ah, entendi! Às vezes eu gosto das suas idéias, sabia?
E terminaria assim: Tudo em paz, apesar do cachorro. Além disso, o menor resultado possível num jogo de vôlei é de três sets a zero. Diversão garantida, portanto. E o jogo terminou em três sets a dois, uma beleza. Fomos para o quarto. Ela na frente, deixando algumas peças de roupa pelo caminho. Adoro isso. Estava me preparando para uma longa noite quando ela abriu a porta do quarto e...
-- AAAAAARGH!
O argh. Fazia tempo.
-- Que foi?
-- Olha o que esse desgraçado fez!
Entrei e vi o poodle no meio de um mar de sapatos. Sapatos dela, porque eu só tenho mesmo dois pares. Tinha mastigado e babado todos, terminando por fazer xixi em cima deles. Parecia orgulhoso de sua obra de arte, abanando o rabo à espera de aplauso. Mas minha namorada não parecia ter apreciado muito, porque falou fazendo esforço para se controlar:
-- Dá um fim nesse cachorro.
-- Tadinho dele, estava só brincando!
-- Por favor.
-- Ah, mas o Monty é tão bonitinho...
-- Não comece.
-- Olha como ele está feliz!
-- Sabe o jogo de vôlei?
-- Que que tem?
-- Faz de conta que foi zero a zero.
Golpe sujo. Deslealdade. Isso não se faz. E agora tenho que dar um jeito de me livrar do cachorro, mas algo me impede, sei lá. Ele estava tão bonitinho no meio daqueles sapatos...

Ela

Domingo é um dia chato, certo? Errado! Domingo é o meu dia preferido. Pelo menos a partir de agora. Ver meu namorado vestido de bombeiro, com o extintor nas mãos e o pânico estampado na cara, foi a cena mais engraçada que eu já em toda a minha vida. Não, isso não é a descrição de um sonho. Eu tenho testemunhas. Testemunhas essas que quase não sobreviveram ao ataque de riso que tomou conta da sala. O único que se manteve sério foi o gato, mas nem ele conseguia parar de olhar. A Cris correu para o banheiro antes que molhasse as calças e o Jair teve câimbras abdominais. O Roberto só conseguia repetir “Show! Show!”.
A Marininha ligou pela manhã nos chamando para almoçar na casa dela. Eu disse que meu namorado não estava e ela resolveu que o almoço seria aqui, desde que eu só entrasse na cozinha para pegar as bebidas (quando é que eu vou começar aquele curso de culinária?!). Já estávamos na terceira caipirinha quando ele entrou. Groucho Marx teria aplaudido de pé. Por algum motivo que eu nunca vou entender, ele ainda acionou o extintor e mandou um jato de gás carbônico na direção do teto para depois dizer “funciona, ó”. Eu não tive tempo de correr ao banheiro. Ele deixou o extintor de lado e tentou explicar “porra, era pra ser uma surpresa!”. O Jair, recuperando-se, respondeu “e foi!”. Eu não sabia se tomava banho ou ficava para ouvir o resto da explicação. Entreguei o copo de caipirinha para o meu namorado e perguntei que tipo de surpresa ele tinha preparado. Foi aí que ele contou do folheto do Clube das Mulheres encontrado no chão e comprou a fantasia. Passamos o domingo todo rindo bastante da história toda. Inclusive ele, que permaneceu vestido de bombeiro a tarde toda. Foi um domingo perfeito. À noite fomos ao cinema mas não vimos o final do filme. Lá pelo meio da história uma cena de sexo na piscina nos fez abandonar o cinema e correr para aquele motel bacana perto de casa. Quebrei a aposta pela primeira vez – apesar da insistência dele em dizer que isso já tinha sido feito na noite anterior. Imagine! Eu teria me lembrado. Eu acho...
De madrugada abrimos a porta do apartamento e ouvimos um latido no meio da sala. “Seu gato está fazendo curso de idiomas?”. Meu namorado consegue ter senso de humor nos momentos mais inusitados. Chequei o número na porta e acendi as luzes. Um cachorro pequeno, branco e peludo abanava o rabo. O Alexandre saiu do quarto, de cueca e pantufas, para explicar. Eles levariam o filhote logo pela manhã. O embarque para Londres estava marcado para as dez e eles sairiam de casa no máximo às sete e meia. “Ele já fez xixi e cocô no jardim do prédio. Não se preocupem”. Na dúvida, espalhei jornal pelo chão da sala antes de dormir.
Hoje acordei com os chacoalhões do meu namorado. “Querida, são dez e meia!” e pulou da cama. Perdemos a hora e ele só acordou porque o gato arranhava a porta do quarto desesperadamente, tentando sair. Eu já tinha desistido de ir trabalhar pela manhã e ia dormir de novo quando ele voltou com o bilhete na mão: