Marco Aurélio

Fotos! Muitas fotos! Gastei seis filmes e ainda achei pouco. Tenho que pedir ao Jair para digitalizar tudo, e ver se é possível fazer uma animação com uma seqüência de fotos da minha namorada descendo uma duna correndo e acabando de cara no chão. Vai ficar muito engraçado!
Nem eu sabia o quanto estava precisando dessas férias. Uma pena ter acabado, mas foi bom demais. Estou até mais animado para voltar à rotina de me equilibrar entre clientes e fornecedores de oito a dez horas por dia. Sou um novo homem, por mais gay que isto pareça.
Foi tudo perfeito. Minha namorada estava meio quieta, retraída, mas compreendo isso. Mesmo passando por lugares que fazem a gente quase esquecer da vida, deve ter sido difícil para ela deixar de pensar na situação em que se encontra, sem emprego. Fora a raiva que ambos sentimos do ex-chefe dela, aquele crápula. Mas isso é passado, e sei que estará totalmente superado em pouco tempo. E sei também que a viagem fez muito bem a ela: Estava muito feliz quando chegamos a São Paulo, muito animada. Bendita hora em que eu tive a idéia dessa viagem! É tudo lindo demais: Itacaré, Ilhéus, Arraial D'Ajuda, Trancoso, Itaúnas, Guarapari, Piúma, Búzios, Cabo Frio, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Paraty, Trindade, meu Deus! Cada lugar que eu via era uma surpresa maior. Em Trancoso, por exemplo, quando chegamos ao mirante que fica atrás da igreja, fiquei boquiaberto com a paisagem.
– Isso aqui é muito bonito! Olha esse mar! Esse céu! Olha que areia branquinha! Não dá vontade de morar num lugar assim?
– Ahã.
– Podíamos nos mudar mesmo. Largar aquela loucura toda e vir pra cá.
– É.
– Que cê tem?
– Nada.
– Tá tão quieta, desanimada. Preocupada com emprego, essas coisas?
– Não. Não é nada.
– Ah, que bom! Hum... Você tá passando protetor solar? Seu ombro está vermelho.
– Estou sim.
– Ah, então tá bom.
Estranho, porque dois dias depois ela mal conseguia dormir, de tão queimada. Mas comprei um protetor fator 50, um creme para aliviar as queimaduras e ficou tudo bem. Ela ainda teve uma dor de barriga dias depois, por causa de uma moqueca capixaba. Fora isso, tudo transcorreu na maior normalidade. Normalidade? O que eu estou dizendo? Foi excepcional, maravilhoso, único!
Enfim, foi bom mas acabou. Agora é esperar um ano para talvez repetir a dose. Nem penso nisso, no entanto: Minha preocupação é com minha namorada. Ela vive lendo os classificados dos jornais, procura na Internet, envia dezenas de currículos. Algumas empresas chamam para uma entrevista, prometem ligar e não ligam. Às vezes chego em casa e ela está no sofá, o olhar fixo no telefone. Eu tento ajudar, acho que todas as pessoas que conheço já têm o currículo dela em mãos. Mas está difícil. E isso começa a afetar nossa vida. Ela agora resolveu desenvolver uma mania de limpeza. Dia desses cheguei e quase fiquei cego com o brilho do balde de gelo sobre a mesa. O poodle vive pelos cantos, ressabiado por causa dos banhos constantes. Ontem mesmo o gato estava correndo pela sala, num daqueles inexplicáveis surtos de atividade que os gatos têm. Tentou parar antes de chegar à parede, mas saiu patinando e foi bater com a cabeça na porta. Pobre gato. E eu também vivo escorregando nesse piso ultraencerado.
Sugeri que procurasse trabalho em outra área, porque esse negócio de informática é muito estressante, mas ela não mostrou grande interesse. Falei com um amigo meu, dono de um estúdio de gravação, e ele disse que talvez tivesse uma vaga por lá. Ela não se animou muito, mas vai ver do que se trata. Espero que dê em alguma coisa, não suporto mais esse apartamento brilhando desse jeito.

Ela

Areia branca, escura, fofa, grossa, fina.
Mar tranqüilo, agitado, verde, azul, marrom.
Pedras escorregadias, cachoeiras geladas e pássaros barulhentos. Às seis da manhã!!
E os siris, mencionei? Monstros das praias baianas!! Bastava uma distraída e eles surgiam do nada, com aqueles assustadores olhos negros e garras afiadas.
Ah, os insetos... De cores e tamanhos variados. Por toda parte.
No primero dia de praia decidi eliminar o problema número um: pele branco-noruega. Protetor solar fator 15 contrariando a recomendação da Dra. Teresa, que indicou o 30 para evitar o câncer de pele. O branco-noruega venceu o sol. No segundo dia troquei o Sundown 15 pelo 8. O branco agora era italiano. Eu já não parecia um boneco de gesso mas ainda me sentia um peixe fora d’água. Terceiro dia e que se dane o câncer de pele! Bronzeador fator 4, cinco horas ininterruptas de sol e uma noite em claro, sem possibilidade alguma de encostar as costas ou a barriga no colchão. No dia seguinte fiz meu namorado ir à farmácia logo cedo para comprar um super-hiper-megaprotetor solar fator 50. Quatro dias depois o ciclo recomeçou e se repetiu algumas vezes. O lado bom é que quando toda essa pele terminar de descolar do meu corpo eu terei perdido uns dois quilos. Dois dos seis quilos que eu adquiri durante a viagem. Nada mau para quem, em apenas um mês, bebeu aproximadamente cinqüenta litros de cerveja e tomou o eqüivalente à produção sementral da Kibon no Brasil. Que sol é aquele?! Os termômetros diziam que a temperatura oscilava entre 30 e 35 graus mas só eu sei que, na verdade, estávamos à beira do ponto de ebulição da água. Mas eu fui guerreira e resisti bravamente, fritando ao sol e virando de meia em meia hora para queimar por igual.
Na segunda semana da viagem acordei sentindo a garganta arranhando. Ficar doente definitivamente não estava nos meus planos. Comprei um antiinflamatório qualquer e decidi que quatro comprimidos por dia evitariam chateações futuras. Impedi a inflamação e ainda descobri que tenho alergia a um dos componentes do remédio. Passei um dia inteiro com os olhos inchados provocados pela reação alérgica.
Sobrevivi ao litoral sul da Bahia e na terceira semana estávamos no Espírito Santo. Durante um almoço na praia troquei a cerveja por um suco de melão. Só pode ter sido ele!! Gastei dois rolos de papel higiênico naquela noite.
Na quarta semana eu já achava que estávamos andando em círculos e voltando sempre à mesma praia. Toda aquela areia e mar e coqueiros tiraram minha capacidade de distingüir Praia Brava de Praia Preta de Praia do Norte e assim por diante. Sem falar em Cururupe, Curuípe, Taípe e outras do gênero.
Meu cabelo odiou a viagem desde o primeiro dia e não fez questão alguma de esconder a revolta. Meu visual provocava gargalhadas no meu namorado que, depois de recuperar o fôlego, dizia “não está tão ruim assim...”.
Ou seja, quatro semanas de muita diversão, prazer e descontração. Tudo devidamente documentado nas 242 fotos que meu namorado tirou, incluindo a seqüência em que uma louca desce correndo uma duna de 30 metros e acaba com a cara enterrada na areia. Eu.