Marco Aurélio

Às vezes parece que o Diabo fica entediado lá no inferno e vem até a Terra para se divertir às nossas custas. Foi o que aconteceu há três dias, quando resolvemos reunir a família da minha namorada para contar sobre a gravidez. O resultado da confusão toda: um cunhado de tapa-olho e uma mulher grávida me tratando da forma mais fria possível durante dois dias. Não tive culpa do que aconteceu com o olho do Edu, foi só mais uma conseqüência da falta de jeito do meu sogro. Quanto a essa mulher que anda pelo apartamento sem falar comigo, bem, acho que eu mereço. Não que a coisa tenha acontecido da forma como ela pensa que aconteceu. O negócio é que ela se levantou para ir ao banheiro e eu fiquei distribuindo as taças. Minha sogra perguntou a que se devia toda aquela cerimônia. Eu falei que não era nada, que assim que ela voltasse do banheiro contaria para todos. E foi aí que o Diabo entrou na história:
– E depois deve voltar pro banheiro de novo. Sabe como é mulher grávida.
Falei sem perceber. Sabe quando você acha que só pensou uma coisa, olha em volta e descobre que na verdade fez um comentário em voz alta? Pois então, foi o que aconteceu. Fez-se o silêncio na sala. Quebrado pelo meu sogro:
– ELA TÁ GRÁVIDA???
Lá do banheiro minha namorada pensou que fosse a minha voz anunciando a gravidez. Como se eu fosse mesmo capaz de fazer algo assim, gritar para todo mundo a notícia que deveria ser divulgada por ela. Enfim, estava formada a confusão. Ela veio do banheiro feito um míssil, o olhar de ódio cravado em mim. Eu – que tentava me desvencilhar de minha sogra, então dependurada no meu pescoço – corri para abraçar minha namorada. Eu sabia que ia apanhar, no mínimo. Foi aí que Satanás, talvez arrependido do que acabara de fazer comigo, resolveu interferir novamente: meu sogro foi estourar o champanhe, a rolha voou e foi bater no olho do Edu. As atenções se desviaram para ele. Até eu fingi alguma preocupação com o babaca do meu cunhado. Tudo para escapar da ira de uma mulher grávida. No entanto, quando os pais dela saíam para levar o filho ao hospital, ela deu um jeito de rosnar para mim:
– Você me paga por essa...
E aí começou o inferno. É horrível quando ela resolve não falar comigo, porque ela não fala mesmo. Nada de gestos, acenos, bilhetes, nada! É como se eu não existisse. Nas primeiras horas eu tentei pedir desculpas, contar minha versão da história, mas não adiantou. Então entrei no jogo. Agüentei durante dois dias, até ontem. Hoje de manhã eu saí para trabalhar já disposto a me reconciliar com ela de qualquer forma quando voltasse. Fui almoçar com o Jair, para ver se ele me dava alguma idéia de como fazê-lo.
– É, rapaz... – Ele disse – Situaçãozinha complicada, essa sua. Mas também, o que é que você tem na cabeça?
– O Diabo...
– Hein?
– Esquece, esquece! Eu sei lá por que fiz aquilo! O negócio é que quero desfazer e não sei como. Você vai me ajudar ou vai ficar aí me criticando?
– Quero te ajudar, você sabe. Mas é difícil, pô! Ela deve estar uma fera, não?
– Você não tem idéia.
– Hum. Que tal umas flores?
– Aí é que ela me expulsa de casa. Você acha que alguma mulher ainda cai nessa?
– É, é verdade... Esse negócio de fazer burrada e depois tentar agradar nunca dá certo.
– Pois é. E então?
– Eu sei lá!
– Você não sabe?
– Não.
– Grande amigo você é...
– OLHA A CAGADA QUE VOCÊ FEZ!
– Humpf.
Voltei do almoço ainda sem idéia do que fazer. No fim da tarde, saí do escritório desanimado com a perspectiva de encontrar uma mulher hostil. Cheguei em casa e tentei puxar assunto:
– Oi.
– ...
– Como você está?
– ...
– Sentiu enjôos hoje?
– ...
– Não vai falar comigo?
– ...
– Então tá. Vou ali ouvir uns discos, espero que você não se importe.
– ...
– Beleza.
Fui até a prateleira e peguei o LP que havia deixado separado para ouvir. The Piper At The Gates Of Dawn, primeiro disco do Pink Floyd. Puxei o bolachão de dentro da capa, botei no prato, posicionei a agulha e me recostei na poltrona. Só que, quando o disco começou a tocar, em vez de Astronomy Domine eu ouvi Sá Marina, do Wilson Simonal. Levantei-me sem entender nada. Olhei o selo do LP. Alegria, Alegria vol. 2. "Ué...", pensei. Procurei o disco do Simonal no meio da minha coleção. São mais de 500 LPs mais ou menos organizados por estilo e por nome do artista. Acontece que estavam todos fora de ordem. Demorou um pouco, mas acabei percebendo o que acontecia. Olhei para minha namorada e ela estava com um meio-sorriso no rosto.
– Você trocou a capa de uns LPs, aqui? É isso?
Ela fez que não com a cabeça. Bom, já era uma forma de comunicação.
– Você trocou a capa de TODOS?
Acenou que sim.
– E é essa sua vingança? Pffff, que coisa besta. Arrumo isso rapidinho.
– Boa sorte – ela disse. – eu vou dormir.
Ainda eram oito da noite, mas nem quis discutir. Ela tinha falado comigo, já era alguma coisa. Entreguei-me ao trabalho de colocar meus LPs de volta nas capas correspondentes e reorganizar tudo. Dentro da capa do Alegria, Alegria vol. 2 estava Samba Esquema Novo, do Jorge Ben. No lugar do disco do Jorge Ben, estava Let It Bleed, dos Rolling Stones. Uma zona. O obsessivo-compulsivo que há em mim queria gritar e sair correndo. Contive-o aos tapas, porém, e prossegui com o trabalho. Fui terminar já passava da uma da manhã. A última capa era de Krig-Ha Bandolo, do Raul Seixas. Coloquei o disco correto dentro dela e enfim encontrei o The Piper At The Gates Of Dawn. Junto com ele, um bilhete dela:
"Se ainda estiver inteiro depois desse trabalho todo, encontre-me no quarto. Precisamos fazer as pazes."

Fui até o quarto e a encontrei acordada e muito bem disposta. Foi uma noite e tanto. Minha namorada é bem amalucada, às vezes, mas sabe ser original quando quer.