Ele

Ué, a aposta não era séria? A regra não era clara? Não tinha errado, o juiz? Então como é que essa mulher me chega de madrugada, bem mais bêbada que eu, arranca a roupa e me faz quebrar a aposta DUAS VEZES? Não que eu esteja reclamando, longe disso. Mas, pombas, eu só queria entender. A vida com essa mulher é feito a Loteria de Babilônia: Todo dia é uma surpresa. Cada mergulho é um flash. Ou qualquer coisa assim.
Tudo ficou mais claro, no entanto, quando me levantei para ir tomar água (certas atividades exigem hidratação) e vi um papel jogado no chão. Com a mania de limpeza que ela tem, um papel jogado no hall é um acontecimento raro, então foi com estranheza que me abaixei para pegá-lo. E mais estranheza ainda experimentei ao ver de que se tratava: Um folheto do Clube das Mulheres, com fotos de homens vestidos feito o Village People. Dois mistérios resolvidos de uma só vez: Onde ela estivera, e de onde vinha toda aquela disposição para quebrar apostas sagradas.
Pois bem, então ela tinha passado a noite se esfregando em homens lindos, sarados e pelados enquanto eu era humilhado pelos amigos no bar. Fantástico. Olhei o relógio: nove da manhã. Voltei para o quarto, vesti qualquer roupa e saí.
-- Vai à padaria, primo?
-- Não, Alexandre. Vou dar uma volta por aí. Preciso pensar numas coisas.
-- Ah, tudo bem. Olha, se alguém ligar nos procurando, eu e o Monty vamos ao Ibirapuera daqui a pouco.
-- Ok, eu aviso para quem ligar. Hum. Não vão aprontar nada no parque, hein?
-- Pode deixar, já aprendemos. Não é mesmo, Monty?
-- É.
Pobre Monty, ainda encucado com a história toda de Ubatuba. Mas não queria me preocupar com o Monty, queria me torturar imaginando os detalhes da noite que ela passara. Saí guiando sem destino. Sei que é uma coisa normal hoje em dia as mulheres freqüentarem "lugares assim". Ora, vez por outra eu, o Jair e os outros vamos a "lugares assim" só por diversão. "Lugares assim" com MULHERES peladas, que fique claro. E nunca achei nada de mais. Apenas uns caras se divertindo, exercendo o direito de serem Neanderthais de vez em quando. Mas imaginar minha namorada num "lugar assim" cheio de homens era muito esquisito. Mesmo porque eles eram lindos, sarados etc. Pelados, Deus do céu! Pelados! E ela tinha ido até lá, toda empolgada com aqueles músculos, aqueles caras bem maiores que eu (em todos os sentidos, imagino), e depois voltara pra casa, para o namorado de sempre, magrinho, branquelo e... E...
E tinha sido uma noite e tanto, ora essa! Do que eu estava reclamando mesmo? Para quem tinha pela frente a expectativa de uma semana de secura, até que eu tinha me dado bem. Muito bem, aliás. Em vez de lamentar, eu devia era recompensar minha mulher pela noite de sexo despudorado (ah, as mulheres bêbadas...). Então fui até a Rua João Teodoro, encontrei uma loja aberta e comprei um uniforme de bombeiro. Um Clube das Mulheres Delivery, o que mais ela ia querer da vida?
Com o uniforme embrulhado no banco do passageiro, voltei ansioso para a casa. Ela ia adorar a surpresa! Passava um pouco do meio-dia, ela já devia estar acordada, assistindo alguma bobagem na TV. Cheguei ao prédio, estacionei na vaga antiga -- é difícil lembrar que minha vaga agora é aquele nicho minúsculo -- e subi. Já fui trocando de roupa no elevador, louco para ver a reação dela ao me ver chegando assim. Deixei a sacola com as minhas roupas no corredor e abri a porta de sopetão. Caprichei na voz grave:
-- É aqui o fogo?
Não, não era ali o fogo. Ali eram minha namorada, a Marininha, o Jair, o Roberto, a Ana Cristina, a Jennifer. Meu Deus, é sério, me leve embora desse planeta!

Ela

Nos jogos da aposta eu torço fervorosamente para o meu time. Só até os trinta minutos do segundo tempo. A partir daí, se o placar ainda marcar zero a zero, começo a torcer para os vinte jogadores de linha indiscriminadamente. Pela primeira vez nos últimos anos esse resultado manteve-se até o apito final. Os atacantes do meu time até que tentaram nos dar um final de tarde recheado de sexo, mas o goleiro adversário entrou em campo possuído pelo deus-dos-goleiros e fez a melhor partida de sua vida. Os atacantes do time do meu namorado pareciam jogadores da segunda divisão do campeonato nacional do Azerbaijão. Deprimente. Somando a incompetência de uns com a brilhante atuação daquele infeliz, dá sete dias dormindo de costas um para o outro. Ele ainda quis me convencer que aquele gol anulado deveria valer alguma brincadeirinha. No way. O gol que ele chamou de legítimo - e eu concordei para evitar discussão - foi de mão. Todo mundo viu. E trato é trato. O que vale é o placar final. Ele saiu dizendo que providenciaria um amistoso fora de casa. Positivo e operante. Ele nem imagina o que eu fiz enquanto ele bebia com o Jair (ele não me engana. Saiu com o Jair).
Passei na Marininha e fomos conferir a liqüidação no shopping. Só não estourei o limite do cartão de crédito porque a irmã dela ligou entusiasmadíssima para contar aonde iria mais tarde. Ela desligou e saiu me puxando pelos corredores do shopping. “Já sei aonde nós vamos hoje!” Eu não fazia idéia do que ela estava falando mas depois agradeci. Tomada pela euforia consumista, eu estava prestes a entrar na loja de decoração e comprar um pufe gigantesco, que ocuparia ¾ da sala do apartamento.
“Marina, pra onde você vai me levar?”. “Relaxa, você vai gostar”. Deixei a maluca em casa e fui me arrumar. “Alô, Marininha, que estilo de roupa se usa nesse lugar misterioso?”. Eu detesto surpresas. “Perua total!”. Oba!!
Uma hora mais tarde ela passou em casa com o carro cheio de mulheres. Eu ainda tentei descobrir qual seria o nosso destino, mas não obtive nem uma pista. Pouco antes de chegar, a Marininha ainda comentou “eu acho que dessa vez vocês quebram a aposta...”. Quando o primeiro stripper entrou pelo palco percebi que ela podia ter razão. Alto, moreno, musculoso e vestido de bombeiro. No final do show o uniforme estava reduzido ao capacete e uma sunguinha minúscula. Bebi metade do estoque de cerveja do lugar e lembro vagamente de ter entrado no prédio cantando “I’m too sexy for my shirt... too sexy for my car...”. Não lembro de mais nada. Quando acordei descobri que tirei os sapatos e o vestido antes de deitar, mas parece que não encontrei a camisola. Com um certo sacrifício, levantei para pegar um Gatorade (ressaca maldita!) e voltei para a cama. Depois de alguns minutos percebi que cruzei com o Monty na sala. Ué, mas eles não deviam estar em Ubatuba? Acho que ele falou alguma coisa sobre meu namorado ter saído cedo mas eu estava ocupada tentando me eqüilibrar e não prestei atenção. Bom, meu namorado explica quando vier me resgatar. Só saio da cama com a ajuda dele. Alías, com todo o estímulo visual de ontem, quando ele aparecer aqui vai ser mais difícil sair da cama.

Ele

O goleiro do meu time tem sido motivo de piada o campeonato inteiro. Levou cada frango que nem a avó do Taffarel engoliria. Se não fosse pela zaga competente, levaríamos uns vinte gols por partida. Mas ontem ele decidiu que era o Dia Internacional da Muralha Intransponível: Não deixou passar nada, nada. Segurança, reflexos rápidos, saídas perfeitas, parecia ter calçado as luvas de Gordon Banks. Uma pena os atacantes não terem acordado com a mesma disposição: Parecia que um time de turberculosos tinha entrado em campo. Finda a partida, o dia iluminado do nosso goleiro e o fracasso do ataque tiveram uma conseqüência que eles jamais imaginariam: Terei uma semana de celibatário. Tentei discutir:
-- Mas o juiz anulou um gol totalmente legítimo do meu time!
-- Errou o juiz, não tenho nada com isso.
-- Droga! Podemos pelo menos fazer um treino recreativo, que tal?
-- Não. Zero a zero, uma semana sem sexo. A regra é clara.
-- ARGH! -- Eu disse, mesmo sabendo que era a fala dela -- Pára de falar assim!
-- ...
-- Eu vou fazer um amistoso fora de casa! Tchau!
-- Tchau, ué.
E saí. Seis da tarde de um sábado, para onde iria se não o bar? Liguei para o Jair dizendo que precisava muito beber e em quinze minutos estávamos lá eu, ele e mais meia dúzia de machos da espécie. Foi meio constrangedor, porque todos eles estão cansados de saber da aposta, e ficaram fazendo piadas com isso o tempo todo. Mas tudo bem, bebi um pouco, descontraí, e quando chegasse em casa só ia querer mesmo dormir.
Cheguei por volta de uma da manhã e encontrei o Alexandre e o Monty no sofá assistindo à reprise de Will & Grace.
-- Ué, já voltaram? Chovendo muito em Ubatuba?
-- Não. O tempo estava ótimo.
-- Hum. Então o que aconteceu?
-- Bom, começou quando chegamos lá e papai quase caiu pra trás ao me ver abraçado com o Monty. Acho que a prima esqueceu de contar pra família sobre minha mudança.
-- É, deve ter sido um choque para ele.
-- Para ele e pro povo todo de Ubatuba. O clima ficou pesado em casa, então eu e Monty resolvemos sair. Fomos até a Praia Vermelha do Norte. Aquela praia linda, o som do mar, já anoitecendo, sabe?
-- Não, não sei.
-- Ai, primo! A gente começou a se beijar, se pegar, sabe como é. E acabamos na delegacia.
-- Ué, só porque estavam se beijando? Que absurdo!
-- Er... A gente não estava só se beijando não. Entende?
-- Meu Deus.
-- É. O delegado deu uma bronca enorme, falou até não poder mais e depois liberou. Então fomos pra casa, arrumamos nossas coisas e viemos embora. Ninguém se despediu da gente, e o Monty tá até agora com essa cara aí, dizendo que é culpa dele que minha família não gosta mais de mim e patati-patatá.
-- Ô, Monty! Não fica assim não, cara. É que eles levaram um susto, foi tudo muito repentino. Depois eles se acostumam, você vai ver.
-- ...
-- Não quer falar?
-- ...
-- Tudo bem então. Hum. Alexandre, faz tempo que ela foi dormir?
-- A prima? Não sei, chegamos aqui há umas duas horas e ela não estava. Não chegou até agora.
-- Ah, ela não está? Sei, sei... Bom, vou dormir então. Monty, vê se melhora essa cara. Boa noite.
Muito bem, muito bem. Onde foi que essa mulher se enfiou, Deus do céu???

Ela

Na maior parte do tempo eu sou uma mulher prática. Não acredito em anjos, nunca li diários de magos, detesto duendes e numa escala de zero a dez em romantismo, posso facilmente ser classificada entre o 3 e o 4. Ontem atingi o 5,5 após a cena que presenciei na sala (ou algumas partes dela, já que a visão pela fresta da porta do quarto não é das mais privilegiadas). Lindo. Melhor que final de filme com a Meg Ryan. Quando o Alexandre ouviu a voz do Monty, seus olhos brilharam. Foi o pedido de desculpas mais comovente que eu já vi. Eles se beijaram, chorando, e tiveram uma longa noite de amor. Longa e barulhenta. O que, modéstia à parte, não representou nenhuma novidade para os vizinhos. Na manhã seguinte encontrei Monty na cozinha, preparando café da manhã pro meu primo. “Bom dia, prima” (ele também me chama de prima. Não é fofo?). “Bom dia”. As olheiras dele ocupavam metade do rosto. A noite devia ter sido mais animada do que pareceu. Sorte do Alexandre. “Vamos para Upatupa hoje.”. “Ubatuba, Monty. Você vai adorar as praias de lá. Divirtam-se”. Quase desejei boa sorte. O prefeito vai ter que decretar luto oficial na cidade depois que a mulherada souber a novidade. Deixei os dois na rodoviária a caminho do trabalho. O Alexandre estava radiante. Ia apresentar o namorado à família. Agora a gente descobre se o marcapasso do meu tio é de boa qualidade.
À noite, o interfone não parou de tocar um minuto sequer. O Serginho brigou com a mãe e saiu de casa. A Jô, do 101, ficou sabendo pelo porteiro que nossos hóspedes tinham alguma coisa a ver com isso. A Lili, do 52, falou pro porteiro que a dona Carmen deu algum flagrante no filho mas a Jenifer, do 53, não sabia exatamente qual era a história por isso não deu detalhes pra Lili. Parece que o Robson, faxineiro, tinha ouvido uma conversa na casa da Denise, do 24, e perguntou pro seu Antunes, o zelador, que contou que o Serginho tinha brigado com uma das minhas visitas. Quem garantia era a Ana, que viu algumas cenas pelo olho mágico depois que um balde de gelo atingiu a porta do seu apartamento. Ninguém sabia dizer pra onde foi o Serginho “porque a gente não gosta de se meter na vida de ninguém, entende?”. Entendo. Tirei o interfone do gancho e fui pro sofá ouvir a chiadeira da década de 70 com o meu namorado. Passamos três horas maravilhosas, conversando e rindo bastante, e quando eu estava começando a gostar das músicas ao fundo da chiadeira ele lembrou do jogo. “Que jogo?”. “Como, que jogo? Amanhã tem o jogo da aposta!”. Com a confusão toda nos últimos dias eu não percebi que nesse final de semana vai ter o nosso clássico. Como nós dois gostamos de futebol mas torcemos para times diferentes, fazemos uma aposta quando nossos times se enfrentam. Isso evita possíveis brigas e deixa todo mundo satisfeito. E como agradar a ambos? Ora, sexo! O placar final do jogo define quantas vezes vamos “comemorar” a vitória (ou o empate. Não importa). Geralmente começamos a comemoração no sofá mesmo, logo após o apito do juiz. Quando o jogo termina em zero a zero, uma semana de castidade. Se um dos dois não agüentar pagar a aposta, o jogo recomeça no dia seguinte. Em zero a zero, claro...

Ele

Chico Buarque e Gilberto Gil compuseram "Cálice" em 1973. No entanto, a música só foi liberada pela censura em 1979, aquela gravação famosa do Chico com Milton Nascimento. Garimpando pelos sebos do centro da cidade na hora do almoço, acabei encontrando um LP de um festival universitário de 73. A gravação é precária, e o estado do disco não ajuda muito, mas não importa: Uma das faixas era uma apresentação do Chico junto com o Gil cantando "Cálice". Deus! Quase caí pra trás diante de tamanha preciosidade. Comprei sem discutir o preço e passei o resto do dia ansioso pela hora em que finalmente estaria em casa para ouvir o LP com minha querida namorada.
Cheguei em casa mais cedo, mas decidi esperá-la para ouvirmos juntos. Quando ela abriu a porta, abri a boca para contar a história toda e fazê-la um pouco mais feliz, mas o Alexandre não deixou: Viu os LPs sobre a mesa de centro, abriu o berreiro e foi para o quarto.
-- Viu o que você fez??? Guarda essa velharia!
Ok, muito bem, feriu meus sentimentos. Da próxima vez em que a mãe dela vier se hospedar aqui, vou fazer questão de usar essa frase, "Guarda essa velharia". Que crueldade! Ia dizer isso, e explicar o quanto era preciosa a "velharia" ali presente, mas não pude porque a campainha tocou. Serginho, o filho da Dona Carmen. Ótimo.
-- O Monty está?
O nome "Monty" surtiu um efeito Shazam no Alexandre, que se materializou na sala no mesmo instante. Pegou o balde de gelo e jogou na direção do filho da síndica. O balde passou zunindo pela minha orelha, desarrumou o cabelo do Serginho e foi bater na porta do apartamento da frente, espalhando seu conteúdo -- chaves, moedas, volantes da Mega Sena, botões, cardápios de pizzaria -- pelo caminho. Enquanto eu atravessava o corredor para pegar o balde, fez-se o inferno: Os dois começaram a trocar insultos e daí a se engalfinharem foi um pulo. Foi engraçado, mas não tive vontade de rir, porque a integridade dos meus discos estava ameaçada. Tratei de salvá-los primeiro, claro, e depois pensar num jeito de apartar a briga. Não foi necessário: O Serginho, talvez percebendo que ia levar a pior, foi embora levando um piercing de lembrança, deixando o Alexandre estendido no chão segurando um chumaço de cabelos e com a orelha sangrando. Comecei a verificar os discos enquanto minha namorada bancava a enfermeira para o primo, que chorava desconsolado. Tudo levado em conta, a punição da Dona Carmen até que foi leve: Só jogou nosso carro para a pior vaga da garagem. A isso eu me acostumo, o carro não é grande mesmo.
Perto da meia-noite -- estava ouvindo minha raridade, sozinho, como se deve -- a campainha tocou mais uma vez. "O Serginho com uma gangue de bichas ninjas", pensei. Estava morrendo de sono, penso coisas absurdas quando estou com sono. Mas não. Era o Monty.
-- O Alexandre está?
Alexandre surgindo na sala de novo. Oh, não. A mesma cena, dessa vez com um dublê. Ele até chegou a olhar para o balde de gelo, mas mudou de idéia e só ficou encarando o Monty. O inglês até que tentou sustentar o olhar, mas acabou baixando a cabeça, envergonhado.
-- Eu... Eu vim pedir desculpas.
-- ...
-- Sei que fui um... Um... Quípula?
-- Crápula, Monty.
-- Thanks. Um crápula. Não vai mais acontecer. Juro!
-- Montgomery, eu não sei o que fazer com você, sabe?
-- Sei.
-- Acho que não vale a pena a gente continuar.
-- ...
Um segundo de silêncio. Dois. E eu lá, assistindo, na maior cara-de-pau. Sou inconveniente às vezes. Três segundos. Cinco. Alexandre pulou no pescoço do Monty e ambos começaram a chorar. Que bonito. Fui para o quarto para deixar os dois à vontade e encontrei minha namorada bisbilhotando pela fresta da porta. Estava chorando.
-- Voltaram. Legal, né?
-- Legal. Chuif. Muito.
-- Só queria saber onde o Monty aprendeu essa palavra, "crápula".
-- Ah, o Alexandre vive se referindo assim ao ex-namorado. "O Delaney, aquele crápula".
-- Hum... É, acho que agora está tudo bem então.
-- Também acho. O que era aquela chiadeira que você estava ouvindo na sala quando o Monty chegou? Pelo amor de Deus!
Chiadeira. CHIADEIRA! Ela é que estava merecendo o balde de gelo na cabeça. Mas tinha sido um dia cheio para ela também, então não respondi nada e fui dormir. Chiadeira, bah!

Ela

Descobri três coisas importantes com o episódio da escada. Primeira: guardar segredo é como fazer regime. No começo é mais difícil controlar os impulsos, mas com o tempo o organismo acostuma. Segunda: sexo na escada, nunca mais. Sempre achei excitante transar em lugares onde houvesse a possibilidade de ser pega em flagrante por um estranho, mas com a dona Carmen como síndica essa chance ultrapassa os limites toleráveis. Somando o incidente do bilhete pra lavanderia com os acontecimentos dos últimos dias, eu posso dizer que me tornei bastante popular por aqui. E pra não correr o risco de ser expulsa do prédio, prefiro restringir nossas brincadeiras sexuais ao apartamento (e ao elevador, em casos extremos). Terceira e mais surpreendente: é possível estacionar o carro naquela minúscula vaga entre o muro e os contêineres de lixo. Pois é. Dona Carmen mudou a nossa vaga na garagem. Se meu namorado estiver disposto a enfrentar dona rotweiller, que vá. Eu passo. E até entendo. Ela não teria nos punido se a confusão toda se resumisse ao flagra na escada.
Depois que Monty saiu de casa, o Alexandre se trancou no quarto. Tentei falar com ele algumas vezes, “Ale, Alezinho, abre a porta...”. “Eu quero ficar sozinho, prima”, respondia entre um soluço e outro. Desisti e fui dormir, coisa que meu namorado já fazia tranqüilamente havia pelo menos uma hora. O insensível só conseguia pensar num disco velho que o Monty levou pro hotel. Na manhã seguinte, avisei que não iria trabalhar. “Porra, justo hoje! Tem um monte de pepino aqui pra resolver!”. “Não posso, seu Fulvio. Tô muito doente. Até mais” e desliguei. Ele precisa de mim, não vai me demitir. Além do mais, ele não faria isso com a filha de seu melhor amigo... Passei o dia com o Alexandre no shopping. Ele se animava com as roupas que ia comprando mas caía no choro quando passava em frente às lojas de CD. Jantamos numa churrascaria GLS (tem de tudo nessa cidade) e ele melhorou. Quando voltamos pra casa, encontramos meu namorado e meia dúzia de discos empoeirados espalhados no sofá. “Olha só o que eu comprei!”. Pronto. O Alexandre voltou pro quarto aos prantos e trancou a porta. “Viu o que você fez??”. Ele mal teve tempo de explicar que passou o horário de almoço comprando aquela velharia e a campainha tocou. “Olá, o Monty está por aí?”. Aquilo só podia ser um pesadelo. Meu primo, que saíu do quarto pensando ser o seu amado, pegou o primeiro objeto que viu pela frente e jogou. Meu namorado teve sorte do balde de gelo não ter batido nele. Passou pelo filho da dona Carmen e foi parar na porta do apartamento em frente. “Sai daqui, piranha!”. O gato correu pra debaixo do sofá. Antes que eu conseguisse articular alguma palavra pra acalmar o Alexandre, o filho da dona Carmen invadiu o apartamento, “quem você chamou de piranha?”. “Você, sua.. sua... sua GORDA!”. Ok, meu primo mereceu aquele tapa. Piranha, tudo bem. Mas gorda!?! Golpe baixo. Chamei meu namorado pra separar os dois. Ele entrou com o balde de gelo na mão e, quando viu que eles brigavam ao lado do sofá, entrou em pânico. “Ai meu Deus, os discos!!”. Resultado final: o filho da síndica voltou pra casa com dois terços dos cabelos que tinha, o Alexandre perdeu o piercing da orelha e os discos saíram intactos. E o balde de gelo também.

Ele

Um dia, olhando para mim lá de cima, Deus disse: "Filho, não terás sossego um dia sequer. Porque eu não vou com a sua cara". Não há outra explicação. Porque eu tento ser legal. Não mexo com ninguém, pago minhas contas (quase sempre em dia), trato bem os vizinhos, telefono para os amigos com freqüência, amo a mulher ingrata que vive comigo. E nada disso adianta!
Ontem mesmo. Estávamos os quatro na sala vendo o material que o Monty conseguira em seu safári musical pelos sebos de São Paulo. E eis que o rapaz, apesar de crítico de música, tem bom gosto. Veio com duas sacolas cheias de vinis: Tom Jobim, João Gilberto, todos aqueles trios de bossa-nova, Mutantes, "A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais", do Ronnie Von, que eu pensava que ninguém conhecia, compactos do Chico Buarque com preciosidades como Umas e Outras e Pedro Pedreiro ao vivo. E mais, muito mais. Um tesouro naquelas sacolas. Passaríamos horas conversando sobre cada uma daquelas bolachas. Passaríamos. Porque bem na hora em que eu comecei a contar ao Monty sobre o suéter que João Gilberto pegou emprestado com Ronaldo Bôscoli para tirar a foto para a capa do Chega de Saudade, a campainha tocou. Dona Carmen, a síndica com cara de rotweiller.
-- Boa tarde.
-- Boa tarde, Dona Carmen.
-- Preciso conversar muito sério com o senhor.
Ai meu Deus.
-- Pois não. Entre, por favor.
-- Não. Prefiro conversar aqui mesmo. É sobre esses pervertidos que o senhor e sua esposa trouxeram para o condomínio.
Ôpa. Hora de dar lição de moral na Dona Carmen.
-- Pervertidos? Por acaso a senhora veio até a minha casa caluniar meus hóspedes apenas pelo fato de serem gays? Será que a senhora não percebe que a convivência pacífica independe da...
-- ... Esse gringo anda mexendo com meu filho.
-- ... opção sexual, e que isso mais tem a ver com... Como disse?
-- Eu disse que o gringo magrelo anda mexendo com meu filho.
-- Hum. Er. Defina "mexendo".
-- O senhor entendeu, não me obrigue a ser explícita.
-- Ah, Dona Carmen, a senhora sabe como é. O povo fala muito, o boato vai aumentando e...
-- Eu vi. Ninguém veio me contar, eu vi.
-- Mas a senhora tem certeza do que viu? Porque às vezes a gente vê uma coisa e interpreta como sendo outra coisa, mas na verdade era uma outra coisa totalmente diferente, então a gente não pode se precipitar e...
-- EU ESTOU DIZENDO QUE VI! NA ESCADA! ELE E O GRINGO!
-- Perdão, a senhora falou alguma coisa sobre escada? -- Minha namorada interrompendo. Ela sabe de alguma coisa. Tá estampado na cara que ela sabe.
-- Que que tem o gringo, minha senhora? -- Alexandre. Céus.
-- Eu te digo que que tem o gringo, meu querido. O gringo estava na escada com meu filhinho, abusando do menino.
-- Dona Carmen, seu filho tem vinte e cinco anos.
-- Não interessa! Esse pervertido estava apalpando as partes do meu filho, e obrigando o coitado a fazer o mesmo.
"As partes". Eu mereço.
-- "Obrigando", Dona Carmen? Mas como, com uma faca, um revólver? Olha, acho que em vez de estar aqui querendo tirar satisfações comigo, a senhora deveria estar tendo uma conversa séria com seu filho. Talvez seja hora de a senhora admitir o que todos já sabem, porque esse rapaz...
-- MONTY! Come here NOW! -- Alexandre. Vermelho. Ciúmes. Oh, não. -- Monty, que história é essa de você na escada com o filho dessa senhora? Hein, Monty?
-- Uh... Uh... Wh-What?
O Monty esqueceu o pouco que sabia de português, então o Alexandre repetiu a pergunta em inglês. Não adiantou, ele continuou se fazendo de desentendido. Grande Monty, é assim que se faz. Dona Carmen, furiosa e escandalizada demais para falar mais alguma coisa, bufou, deu meia-volta e saiu marchando pelo corredor, um-dois, um-dois, um-dois. Minha namorada soltou seu clássico "ARGH!" e foi ver televisão. O Alexandre cobriu o rosto com as mãos e foi chorar na cama que, dizem, é lugar quente. Ficamos eu e o Monty na porta, olhando um pra cara do outro. Eu queria rir, mas percebi que não era o momento.
-- Que presepada, hein, Monty?
-- What? Pres...?
-- Forget about it. Vai lá falar com o Alexandre, acho que ele ficou meio chateado com isso. Pô, você precisava atacar o filho da síndica?
-- Ele me ataca. Atacou. Ataca, atacou?
-- Atacou.
-- Obrigado. Ele me atacou. Na escada. Bom menino.
-- Bom menino...?
-- Bom. Muito bom. Entende?
-- Acho que entendo. Mas vai conversar com o Alexandre logo.
-- Ok. All right. Bloody 'ell.
O Monty foi para o quarto de hóspedes. Silêncio. Dois minutos de silêncio. Depois um grito do Alexandre. Alto e agudo o suficiente para quebrar cristais, caso tivéssemos cristais em casa. O pobre inglês saiu tropeçando do quarto.
-- Alexadre fala pra eu ir embora. Não quer mais.
-- Hum. Será que é sério?
-- É. Mas depois eu... eu... "volta"?
-- "Volto"
-- Eu volto, fica tudo bem.
-- Ah, então já aconteceu antes, hein?
-- Sim.
Maravilha. Ele juntou algumas roupas, pegou os discos e foi para um hotel para esperar a poeira assentar. Fui me sentar ao lado dela no sofá.
-- Você sabia, né?
-- Sabia. Eu vi quando fui levar o lixo lá fora.
-- Era só o que faltava.
-- Droga.
-- Hum. O Monty falou "bloody 'ell". Achei que os ingleses só falassem "bloody 'ell" nos filmes.
-- O Monty... Um desperdício, o Monty.
-- Desperdício de quê? O cara é só pele e osso, pálido feito um fantasma, narigudo.
-- Ele é bonito. Muito bonito. Você não sabe de nada. Ele parece o Benicio Del Toro.
-- Tá. Te falei que hoje uma moça veio falar comigo pensando que eu era o Brad Pitt?
-- Não seja cínico. O Monty é bonito, e tem outros atrativos também.
-- É verdade. Aquele disco do Ronnie Von...
-- Não estou falando disso. Estou falando do que vi na escada.
-- Grande?
-- Pois é.
-- Maior...?
-- Maior que o quê?
-- Você sabe. Maior...?
-- Ah, cala a boca.
Tá bom, calei a boca. Oras, só queria saber. "A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais". Droga, será que eu nunca vou conseguir ouvir esse disco?

Ela

Montgomery. Um Benicio Del Toro mais magro, com sotaque britânico. Traços femininos? Nenhum. Ele até gritou um “shit!” bem masculino quando foi tomar banho, antes que alguém pudesse alertar as visitas sobre o primeiro jato d’água. Foi um déjà vu com tecla SAP do “merda” que meu namorado gritava quando mudamos pra cá (nada comparado ao “GÊNTI!” do Alexandre, claro). Ele dificilmente ri. Quando diz alguma frase engraçada, dá uma tragada no cigarro e solta lentamente a fumaça, sem esboçar sinal de riso. Um charme. Será que todas as bichas inglesas são assim? Se eu fosse viado, teria me apaixonado no primeiro momento. Deve ter sido assim com o Alexandre. Meu namorado contou uma história bizarra sobre meu primo de cueca lilás, convidando pra uma sessão de meditação e piscando pra ele. Só pode ser piada. Essas provocações a respeito da masculinidade do “garanhão de Ubatuba” estão passando dos limites. Depois ele me mostrou a tal cueca no varal. Nem era lilás, era bordô. E a posição que ele descreveu não tinha nada a ver com meditação. Estava numa matéria sobre sexo tântrico que eu li um dia desses. Meu primo é completamente apaixonado pelo Monty. No aniversário dele, mês passado, o Alexandre se vestiu de Marilyn Monroe e saiu de dentro de um bolo pra cantar “Happy birthday to you. Happy birthday to you. Happy birthday, dear Monty. Happy birthday to you…”. Ele me contou isso enquanto preparava o jantar de ontem (melhor ainda que o de segunda, como ele consegue?!) e se ele tivesse saído do bolo cantando Let’s Get It On eu teria cortado meus pulsos com a lixa de unha que estava na minha mão. Enfim, ele ama o namorado e eu estaria extremamente confortável com a situação se não fossem dois importantes fatores: a) eu beijei esse homem e cheguei bem perto de perder minha virgindade com ele – e quando eu digo bem perto, estou me referindo a centímetros; e b) eu vi o Monty com o filho da síndica nas escadas do prédio numa posição popularmente conhecida como mão-naquilo-aquilo-na-mão. E aquilo tinha muito mais centímetros do que a distância que faltou pra eu perder minha virgindade com o Alexandre... Eles estavam tão empolgados que nem me viram. E agora?? E agora, nada! Eu vou manter minha boca fechada e levar esse segredo comigo pro resto da vida. Talvez eu conte pra alguém quando estiver morrendo, sempre quis ter um segredo pra contar segundos antes de morrer, mas enquanto esse momento não chegar eu vou fingir que nada aconteceu. Droga! Maldita hora em que fui tirar o lixo. E o filho da dona Carmen, heim, quem diria...

Ele

Admito que não queria ir, mesmo antes de saber que se tratava de uma boate gay. Tenho implicância com lugares que têm apóstrofo no nome. Nunca fui ao Thanks God It's Friday's, devido ao abuso de apóstrofos. Não sei explicar de onde veio isso, mas o fato é que implico mesmo. E, caramba, o nome do lugar era P'soas, o apóstrofo no começo, a ainda metido a engraçadinho! Não podia dar certo. Acabei indo, sob veementes protestos.
Senti um pouco de medo ao chegar. Sabia que ninguém ia me atacar nem nada assim, e até que era agradável ver algumas meninas se beijando pelos cantos, mas prevenido morreu de velho e um homem seguro vale por dois e todos esses ditados. E o medo não adiantou mesmo nada, porque cometi o erro de tomar cerveja, e logo precisei ir ao banheiro. Deixei minha namorada na mesa com os pombinhos e fui. Rezando, mas fui.
Os banheiros ficavam no final de um corredor e -- surpresa! -- as portas não tinham qualquer identificação. Nada de "M" e "H", nada de desenhos, nada. Tentei usar a velha técnica de dar uma olhada pra dentro, entrando naquele que tivesse mictórios. Nenhum dos dois tinha. "Bah, que diferença faz?", pensei, e entrei em qualquer um. Quando fui lavar as mãos, ouvi vozes de homem saindo de um dos reservados. Bom. Banheiro certo. Enquanto tentava puxar duas toalhas de papel para enxugar as mãos, já quase comemorando meu sucesso na aventura toda, alguém apertou minha bunda, cochichando alguma coisa que eu não entendi. Terminava em "ão".
-- Epa.
-- Menino, desculpe! Ai, pensei que fosse o Monty. Como vocês se parecem, assim de costas! Ai ai, tô tão sem graça...
Muito bem, eu não pareço o Monty. Ele é subnutrido, eu sou saudável. Quero dizer, eu me alimento. O Monty parece que faz fotossíntese, é até meio esverdeado. Mas na hora achei melhor aceitar sem discussão.
-- Normal, Alexandre. Não esquenta. Acontece.
Acontece... Acontece nada! Tratei de sair logo do banheiro e voltar para os braços da minha mulher.
-- Acho que a gente podia ir andando, né?
-- Como? O Alexandre e o Monty não vão querer ir embora agora não...
-- A gente pega um táxi e deixa a chave do carro com eles.
-- Ah, mas agora que eu comecei a me divertir! Cê não tá se divertindo?
-- Claro que estou! Mas é que se eu ficar mais tempo aqui vou acabar arrumando um namorado, e você não vai gostar.
-- !?
-- Deixa pra lá. Vamos, vamos.
Ela ainda quis discutir, mas deve ter visto o terror carimbado na minha cara, de modo que cinco minutos depois estávamos dentro de um táxi a caminho de casa. Tentei esquecer o ocorrido, e acho que até consegui, porque ainda tive condições de fazer mais duas ou três piadinhas sobre o primão comedor antes de dormirmos.
E tudo permaneceu muito bem até hoje de manhã, quando passei em frente ao quarto de hóspedes e vi o Alexandre lá dentro. Estava em pé numa perna só, a outra formando um "4", os braços entrelaçados. Vestia uma cueca lilás horrível e mais nada. De olhos fechados, fazia um barulho esquisito com a boca. Um negócio assim: "AhmPRRRRRRRRRRRRDa-da-da". É, mais ou menos isso. Eu devia ter ignorado, era a coisa certa a fazer, mas o absurdo da cena me congelou no lugar. E, claro, ele me viu.
-- Ah, oi. Estava meditando.
-- É? Legal. Desculpe o incômodo, pode continuar.
-- Que é isso, menino? É sua casa, bobo!
-- Não, é sério. Foi mal. É seu quarto e tal. Continua aí, desculpa.
-- De jeito nenhum, já estava terminando mesmo! E esse tipo de meditação só tem graça quando feito a dois. É para o desenvolvimento da libido, sabe?
-- Ah, é? Interessante. E cadê o Monty?
-- Sei lá, saiu por aí, o ingrato! Disse que ia garimpar uns discos, essas coisas. Ei, por que você não me acompanha?
Luzes de pânico piscando dentro da cabeça.
-- Acompanhar? Não! Quer dizer... Não, obrigado. Eu... Eu tenho que fazer um negócio. É. Um negócio. Ali no quarto. No meu quarto. Hum. Fique à vontade, viu.
-- Tá bom, se prefere assim... Mas se mudar de idéia, já sabe, é só dizer.
E piscou pra mim. O Garanhão Emplumado de Ubatuba piscou pra mim. Eu mereço.