Tudo ficou mais claro, no entanto, quando me levantei para ir tomar água (certas atividades exigem hidratação) e vi um papel jogado no chão. Com a mania de limpeza que ela tem, um papel jogado no hall é um acontecimento raro, então foi com estranheza que me abaixei para pegá-lo. E mais estranheza ainda experimentei ao ver de que se tratava: Um folheto do Clube das Mulheres, com fotos de homens vestidos feito o Village People. Dois mistérios resolvidos de uma só vez: Onde ela estivera, e de onde vinha toda aquela disposição para quebrar apostas sagradas.
Pois bem, então ela tinha passado a noite se esfregando em homens lindos, sarados e pelados enquanto eu era humilhado pelos amigos no bar. Fantástico. Olhei o relógio: nove da manhã. Voltei para o quarto, vesti qualquer roupa e saí.
-- Vai à padaria, primo?
-- Não, Alexandre. Vou dar uma volta por aí. Preciso pensar numas coisas.
-- Ah, tudo bem. Olha, se alguém ligar nos procurando, eu e o Monty vamos ao Ibirapuera daqui a pouco.
-- Ok, eu aviso para quem ligar. Hum. Não vão aprontar nada no parque, hein?
-- Pode deixar, já aprendemos. Não é mesmo, Monty?
-- É.
Pobre Monty, ainda encucado com a história toda de Ubatuba. Mas não queria me preocupar com o Monty, queria me torturar imaginando os detalhes da noite que ela passara. Saí guiando sem destino. Sei que é uma coisa normal hoje em dia as mulheres freqüentarem "lugares assim". Ora, vez por outra eu, o Jair e os outros vamos a "lugares assim" só por diversão. "Lugares assim" com MULHERES peladas, que fique claro. E nunca achei nada de mais. Apenas uns caras se divertindo, exercendo o direito de serem Neanderthais de vez em quando. Mas imaginar minha namorada num "lugar assim" cheio de homens era muito esquisito. Mesmo porque eles eram lindos, sarados etc. Pelados, Deus do céu! Pelados! E ela tinha ido até lá, toda empolgada com aqueles músculos, aqueles caras bem maiores que eu (em todos os sentidos, imagino), e depois voltara pra casa, para o namorado de sempre, magrinho, branquelo e... E...
E tinha sido uma noite e tanto, ora essa! Do que eu estava reclamando mesmo? Para quem tinha pela frente a expectativa de uma semana de secura, até que eu tinha me dado bem. Muito bem, aliás. Em vez de lamentar, eu devia era recompensar minha mulher pela noite de sexo despudorado (ah, as mulheres bêbadas...). Então fui até a Rua João Teodoro, encontrei uma loja aberta e comprei um uniforme de bombeiro. Um Clube das Mulheres Delivery, o que mais ela ia querer da vida?
Com o uniforme embrulhado no banco do passageiro, voltei ansioso para a casa. Ela ia adorar a surpresa! Passava um pouco do meio-dia, ela já devia estar acordada, assistindo alguma bobagem na TV. Cheguei ao prédio, estacionei na vaga antiga -- é difícil lembrar que minha vaga agora é aquele nicho minúsculo -- e subi. Já fui trocando de roupa no elevador, louco para ver a reação dela ao me ver chegando assim. Deixei a sacola com as minhas roupas no corredor e abri a porta de sopetão. Caprichei na voz grave:
-- É aqui o fogo?
Não, não era ali o fogo. Ali eram minha namorada, a Marininha, o Jair, o Roberto, a Ana Cristina, a Jennifer. Meu Deus, é sério, me leve embora desse planeta!



