Depois da cena ridícula no apartamento e do strip-tease na festa, achei que nunca mais aquela roupa de bombeiro fosse me fazer passar vergonha. Bah! Maldito seja o Jair com seus brinquedinhos tecnológicos. Ele filmou a presepada toda com aquela camerazinha, depois fez um negócio lá pra passar o vídeo para o computador (minha namorada me explicou depois como se faz isso, não guardei uma palavra) e mandou por e-mail para "algumas" pessoas. Essas cinqüenta ou sessenta pessoas repassaram o e-mail com o vídeo, e agora o mundo inteiro está vendo as peripécias do Bravo Bombeiro e sua Carismática Cotonete.
Segundas-feiras já não são particularmente agradáveis. A segunda-feira depois da festa foi pior ainda, com o vídeo rodando todo o escritório e eu tendo que agüentar comentários engraçadinhos. É bonito de se ver o quanto acontecimentos assim são fatores de união entre as classes: Desde o diretor até o boy, ninguém foi privado do direito de rir da minha cara. Maravilha. A situação estava insuportável. Eu ia acabar voltando do almoço com uma metralhadora na mão e um sorriso iluminando o rosto. O resto estaria no plantão do Jornal Nacional, com aquela musiquinha de tragédia. Para evitar a catástrofe, inventei que tinha que visitar um cliente depois do almoço e fui embora.
Chegando em casa, assisti mais uma vez ao Entrando Numa Fria, aquele filme com Ben Stiller e Robert De Niro, para pelo menos ter o consolo de ver alguém passando por mais situações embaraçosas do que eu. Confesso que não consegui rir muito. O filme já estava no final quando ela chegou.
-- Ué, veio mais cedo pra casa?
-- É. Fugi do trabalho para não morrer.
-- Ai meu Deus... Gripe de novo?
-- Não. O vídeo. Você viu o vídeo?
-- Não. Que vídeo?
-- O desgraçado do Jair filmou nossa performance na festa, passou para o computador e...
-- Ah, eu vi isso. Ele filmou com a câmera digital e depois conectou o balangandã no estrogonofe, fazendo um vibrafone de moluscos em ré menor. -- Não foi nada disso que ela falou, mas algo igualmente sem sentido para mim -- Aí depois foi só mandar por e-mail.
-- E você está aí, com essa cara tranqüila?
-- Ué, pelo menos ninguém notou a cor do meu cabelo debaixo daquela peruca branca.
-- ARGH! -- berrei, que também tenho esse direito.
As mulheres têm uma forma estranha de encarar os fatos. Parece que tudo, no fim das contas, está relacionado à estética. Acho que se um dia seres extraterrestres resolverem fazer contato, a maior preocupação delas será com a escolha de roupas para a ocasião.
-- Veja bem, querida: Esse deve ser o clímax da História, o ponto culminante de toda a Civilização. Finalmente podemos afirmar com absoluta certeza que não estamos sozinhos. É hora de questionarmos nosso papel no grande Drama Cósmico.
-- Sei, sei... E o que você acha, vestido verde ou... Um pretinho básico?
-- Pelo amor de Deus, será que você não percebe que o que está acontecendo é uma revolução em todos os sentidos?
-- Revolução, é? Hum, então acho melhor usar algo mais ousado...
É espantoso. Enquanto eu me descabelava pensando em tantas pessoas me vendo rebolando de cueca, ela se dava por satisfeita por não mostrar seus cabelos de beterraba. É como eu sempre digo, vá o diabo entender as mulheres.
Na terça-feira, fui trabalhar com medo. Muito medo. Imaginava equipes de rádio e TV, repórteres de todos os jornais e revistas, fotógrafos, todos à caça da mais nova celebridade da internet, o Bombeiro Stripper. Representantes da TFP estariam protestando em frente ao prédio. Os bombeiros de verdade estariam lá também, com os brios da corporação feridos por aquela palhaçada, e dispostos a lavar sua honra. Ia ser um inferno. Preciso aprender um jeito de domar essa minha imaginação doente, porque quando ela dispara dá nisso. É claro que quando eu cheguei estava tudo como sempre. Aliás, nem tudo.
-- Bom dia, bombeiro...
Fabi, a recepcionista. Cabelos louros até o meio das costas, olhos azuis, uma delícia. Sonho de todos os homens do escritório. Olhando para mim com aquela carinha de safada. Ó, Deus, como é difícil ser fiel nesse mundo cheio de tentações! Mas consegui manter a compostura: Respondi com um "Bom dia" seco, e tenho quase certeza de ter ouvido um suspiro quando atravessava o corredor.
E essa foi minha rotina por todo o dia. Esgotadas as molecagens dos homens, era vez de ouvir os comentários femininos a respeito do bombeiro. Comentários muito favoráveis, eu diria. A menina da contabilidade, Andreza, chegou a me perguntar se eu já pensara em seguir a carreira de dançarino. Respondi que sim, claro, já estava até fazendo um estágio no Clube das Mulheres, além de trabalhar como voluntário no Corpo de Bombeiros nos fins-de-semana. Ao contrário do dia anterior, não estava me importando nenhum pouco em ser o pateta do escitório. Mal via a hora de chegar em casa e despertar o furor ciumento de minha namorada falando sobre o sucesso do valente soldado do fogo entre as colegas de trabalho.
Findo o expediente ("Até amanhã, Fabi", "Tchau, lindinho"), fui para casa pensando nisso e nas minhas férias, que começariam na semana seguinte. Não poderia viajar, já que nossas férias nunca coincidem, mas pelo menos poderia passar vinte dias brincando com o Poodle e o Gato, infernizando minha namorada investido de meu novo papel de terror das mulheres, e talvez até ensaiando uns passos para aprimorar meu desempenho no palco. Mas meus planos começaram a mudar quando abri a porta e me deparei com ela sentada no sofá, chorando entre montanhas de lenços de papel.
Segundas-feiras já não são particularmente agradáveis. A segunda-feira depois da festa foi pior ainda, com o vídeo rodando todo o escritório e eu tendo que agüentar comentários engraçadinhos. É bonito de se ver o quanto acontecimentos assim são fatores de união entre as classes: Desde o diretor até o boy, ninguém foi privado do direito de rir da minha cara. Maravilha. A situação estava insuportável. Eu ia acabar voltando do almoço com uma metralhadora na mão e um sorriso iluminando o rosto. O resto estaria no plantão do Jornal Nacional, com aquela musiquinha de tragédia. Para evitar a catástrofe, inventei que tinha que visitar um cliente depois do almoço e fui embora.
Chegando em casa, assisti mais uma vez ao Entrando Numa Fria, aquele filme com Ben Stiller e Robert De Niro, para pelo menos ter o consolo de ver alguém passando por mais situações embaraçosas do que eu. Confesso que não consegui rir muito. O filme já estava no final quando ela chegou.
-- Ué, veio mais cedo pra casa?
-- É. Fugi do trabalho para não morrer.
-- Ai meu Deus... Gripe de novo?
-- Não. O vídeo. Você viu o vídeo?
-- Não. Que vídeo?
-- O desgraçado do Jair filmou nossa performance na festa, passou para o computador e...
-- Ah, eu vi isso. Ele filmou com a câmera digital e depois conectou o balangandã no estrogonofe, fazendo um vibrafone de moluscos em ré menor. -- Não foi nada disso que ela falou, mas algo igualmente sem sentido para mim -- Aí depois foi só mandar por e-mail.
-- E você está aí, com essa cara tranqüila?
-- Ué, pelo menos ninguém notou a cor do meu cabelo debaixo daquela peruca branca.
-- ARGH! -- berrei, que também tenho esse direito.
As mulheres têm uma forma estranha de encarar os fatos. Parece que tudo, no fim das contas, está relacionado à estética. Acho que se um dia seres extraterrestres resolverem fazer contato, a maior preocupação delas será com a escolha de roupas para a ocasião.
-- Veja bem, querida: Esse deve ser o clímax da História, o ponto culminante de toda a Civilização. Finalmente podemos afirmar com absoluta certeza que não estamos sozinhos. É hora de questionarmos nosso papel no grande Drama Cósmico.
-- Sei, sei... E o que você acha, vestido verde ou... Um pretinho básico?
-- Pelo amor de Deus, será que você não percebe que o que está acontecendo é uma revolução em todos os sentidos?
-- Revolução, é? Hum, então acho melhor usar algo mais ousado...
É espantoso. Enquanto eu me descabelava pensando em tantas pessoas me vendo rebolando de cueca, ela se dava por satisfeita por não mostrar seus cabelos de beterraba. É como eu sempre digo, vá o diabo entender as mulheres.
Na terça-feira, fui trabalhar com medo. Muito medo. Imaginava equipes de rádio e TV, repórteres de todos os jornais e revistas, fotógrafos, todos à caça da mais nova celebridade da internet, o Bombeiro Stripper. Representantes da TFP estariam protestando em frente ao prédio. Os bombeiros de verdade estariam lá também, com os brios da corporação feridos por aquela palhaçada, e dispostos a lavar sua honra. Ia ser um inferno. Preciso aprender um jeito de domar essa minha imaginação doente, porque quando ela dispara dá nisso. É claro que quando eu cheguei estava tudo como sempre. Aliás, nem tudo.
-- Bom dia, bombeiro...
Fabi, a recepcionista. Cabelos louros até o meio das costas, olhos azuis, uma delícia. Sonho de todos os homens do escritório. Olhando para mim com aquela carinha de safada. Ó, Deus, como é difícil ser fiel nesse mundo cheio de tentações! Mas consegui manter a compostura: Respondi com um "Bom dia" seco, e tenho quase certeza de ter ouvido um suspiro quando atravessava o corredor.
E essa foi minha rotina por todo o dia. Esgotadas as molecagens dos homens, era vez de ouvir os comentários femininos a respeito do bombeiro. Comentários muito favoráveis, eu diria. A menina da contabilidade, Andreza, chegou a me perguntar se eu já pensara em seguir a carreira de dançarino. Respondi que sim, claro, já estava até fazendo um estágio no Clube das Mulheres, além de trabalhar como voluntário no Corpo de Bombeiros nos fins-de-semana. Ao contrário do dia anterior, não estava me importando nenhum pouco em ser o pateta do escitório. Mal via a hora de chegar em casa e despertar o furor ciumento de minha namorada falando sobre o sucesso do valente soldado do fogo entre as colegas de trabalho.
Findo o expediente ("Até amanhã, Fabi", "Tchau, lindinho"), fui para casa pensando nisso e nas minhas férias, que começariam na semana seguinte. Não poderia viajar, já que nossas férias nunca coincidem, mas pelo menos poderia passar vinte dias brincando com o Poodle e o Gato, infernizando minha namorada investido de meu novo papel de terror das mulheres, e talvez até ensaiando uns passos para aprimorar meu desempenho no palco. Mas meus planos começaram a mudar quando abri a porta e me deparei com ela sentada no sofá, chorando entre montanhas de lenços de papel.




