Quatro dias em Porto Alegre, dormindo num hotel horrível e lidando com o Darcy durante o dia todo. Agüentar o Darcy não é fácil. Anel de ouro no mindinho, camisas e gravatas em tons pastéis, cabelo empapado em gel. E fala com a gente e vai chegando perto. Você dá um passo para trás, ele avança, parece que está dançando. Com a proximidade excessiva, o cheiro do perfume barato que usa, misturado com o dos cravos que mastiga sem parar, faz-se mais evidente. Não é fácil, o Darcy. Mas pelo menos fico um pouco longe da balbúrdia em que se tornou nosso apartamento agora que minha namorada enfiou na cabeça que vai ser decoradora. Ainda descubro quem foi que deu essa idéia a ela. Meu Deus, a mania de limpeza era bem melhor! Tudo bem, tudo bem. Ao menos por esses dias estou livre das loucuras dela. O único problema é essa cidade toda decorada para o Natal. Odeio Natal. Tenho ganas de estapear todo Papai Noel que cruza meu caminho, de sair arrancando e pisoteando aqueles enfeites que as pessoas penduram na fachada das casas. Fico me imaginando andando pelas ruas com uma tocha na mão, queimando guirlandas, renas, papais-noéis. Seria lindo... Mas não posso fazer nada disso, então vou me contendo.
E nem tenho muito tempo para pensar nessas coisas. Negociar o contrato com o Darcy tem sido uma pedreira. Uma hora ele quer descontos absurdos, outra hora quer parcelamentos impraticáveis, depois quer prazos de entrega inadmissíveis. Aos poucos, no entanto, vamos avançando. Eu achava que ia resolver tudo em um dia, no máximo dois, e ter dois dias para conhecer a cidade, mas acho que não vai dar: Os dois primeiros dias foram de expediente até tarde, negociações intermináveis, telefonemas de um e de outro lado, um inferno. Terminado o expediente (lá pelas nove ou dez da noite), só tenho mesmo vontade de voltar para o hotel e tentar dormir. Sim, tentar, porque o lugar parece mal-assombrado. Lembra um pouco o Overlook Hotel, d'O Iluminado. Não, mentira. Eu que não gosto de hotéis. Um medo besta, porém real. Entro no quarto fazendo barulho e acendendo todas as luzes. Sei o quanto isso é ridículo, e jamais faria o mesmo se estivesse com alguém. Sozinho, porém, é melhor garantir que todos os fantasmas tenham tempo de se esconder quando eu chego. Tenho raiva de mim mesmo por agir assim, mas não consigo evitar. Num hotel, qualquer coisinha me assusta. Hoje mesmo: Estava entrando no quarto depois de um dia cansativo, quando o celular vibrou no meu bolso. Meu coração, que eu vinha conseguindo manter num ritmo razoável de bossa-nova, começou um batuque de escola de samba. Ainda bem que o hemisfério esquerdo do cérebro acordou a tempo e mandou o direito calar a boca, se não eu ia gritar ou fazer qualquer outra bobagem. Calma. É só o telefone.
– Alô?
– Oi, sou eu. Que foi, tava correndo?
– Correndo, eu? Não.
– E por que está respirando assim?
– Assim como?
– Desse jeito, oras. Ofegante.
– Ah. Me assustei com o telefone, acho.
– Com o telefone? Eu, hein...
– Como estão as coisas aí?
– Ah, uma maravilha! Minha mãe esteve aqui. Falamos sobre decoração. Ah, estou tão empolgada com isso! A Marininha me disse... (horas de fala ininterrupta) ... E agora tem o Natal e...
– Como?
– Hein?
– Que que tem o Natal?
– Ah. As lojas estão cheias. Fica difícil de achar as coisas e tal.
– Ah, sim. Por um momento achei que você estivesse pensando em decoração de Natal ou alguma coisa assim.
– Eu? Claro que não!
– Ah, que bom.
– Trabalhando muito?
– Demais. Acabei de chegar ao hotel, aliás. Estava trabalhando até agora.
– Puxa, até essa hora... Essa tal de Darcy não deve ser mole, hein?
– Esse tal de Darcy, menina.
– O Darcy é homem? Ah.
– Por que o alívio?
– Alívio? Alívio nenhum. Só achei que fosse mulher e...
– ... E ficou com ciúme. Certo?
– Hum. Um pouquinho.
– Como você é boba. Mesmo que fosse mulher, não teríamos tempo para nada. Estamos trabalhando demais para isso.
– Tá bom então. Vou deixar você descansar.
– Estou com saudade...
– Eu também. Por falar nisso, comprei um conjuntinho igual aquele que a
Dona Maria Eugênia usou no dia do desfile...
– Ah, é? Que bom, podemos usar ao mesmo tempo! Será que eu fico bem de calcinha?
– Bobão. Modelo igual, não o tamanho. Vai dormir, vai.
– Vou sim. Com o Darcy.
– ARGH! Tchau!
– Beijo, querida.
– Outro.
Ciúme do Darcy. Era o que me faltava. Mas o telefonema me fez relaxar e até consegui esquecer um pouco que estava em território hostil (um hotel! Meu DEUS!). Ela me faz muito bem, às vezes.
E nem tenho muito tempo para pensar nessas coisas. Negociar o contrato com o Darcy tem sido uma pedreira. Uma hora ele quer descontos absurdos, outra hora quer parcelamentos impraticáveis, depois quer prazos de entrega inadmissíveis. Aos poucos, no entanto, vamos avançando. Eu achava que ia resolver tudo em um dia, no máximo dois, e ter dois dias para conhecer a cidade, mas acho que não vai dar: Os dois primeiros dias foram de expediente até tarde, negociações intermináveis, telefonemas de um e de outro lado, um inferno. Terminado o expediente (lá pelas nove ou dez da noite), só tenho mesmo vontade de voltar para o hotel e tentar dormir. Sim, tentar, porque o lugar parece mal-assombrado. Lembra um pouco o Overlook Hotel, d'O Iluminado. Não, mentira. Eu que não gosto de hotéis. Um medo besta, porém real. Entro no quarto fazendo barulho e acendendo todas as luzes. Sei o quanto isso é ridículo, e jamais faria o mesmo se estivesse com alguém. Sozinho, porém, é melhor garantir que todos os fantasmas tenham tempo de se esconder quando eu chego. Tenho raiva de mim mesmo por agir assim, mas não consigo evitar. Num hotel, qualquer coisinha me assusta. Hoje mesmo: Estava entrando no quarto depois de um dia cansativo, quando o celular vibrou no meu bolso. Meu coração, que eu vinha conseguindo manter num ritmo razoável de bossa-nova, começou um batuque de escola de samba. Ainda bem que o hemisfério esquerdo do cérebro acordou a tempo e mandou o direito calar a boca, se não eu ia gritar ou fazer qualquer outra bobagem. Calma. É só o telefone.
– Alô?
– Oi, sou eu. Que foi, tava correndo?
– Correndo, eu? Não.
– E por que está respirando assim?
– Assim como?
– Desse jeito, oras. Ofegante.
– Ah. Me assustei com o telefone, acho.
– Com o telefone? Eu, hein...
– Como estão as coisas aí?
– Ah, uma maravilha! Minha mãe esteve aqui. Falamos sobre decoração. Ah, estou tão empolgada com isso! A Marininha me disse... (horas de fala ininterrupta) ... E agora tem o Natal e...
– Como?
– Hein?
– Que que tem o Natal?
– Ah. As lojas estão cheias. Fica difícil de achar as coisas e tal.
– Ah, sim. Por um momento achei que você estivesse pensando em decoração de Natal ou alguma coisa assim.
– Eu? Claro que não!
– Ah, que bom.
– Trabalhando muito?
– Demais. Acabei de chegar ao hotel, aliás. Estava trabalhando até agora.
– Puxa, até essa hora... Essa tal de Darcy não deve ser mole, hein?
– Esse tal de Darcy, menina.
– O Darcy é homem? Ah.
– Por que o alívio?
– Alívio? Alívio nenhum. Só achei que fosse mulher e...
– ... E ficou com ciúme. Certo?
– Hum. Um pouquinho.
– Como você é boba. Mesmo que fosse mulher, não teríamos tempo para nada. Estamos trabalhando demais para isso.
– Tá bom então. Vou deixar você descansar.
– Estou com saudade...
– Eu também. Por falar nisso, comprei um conjuntinho igual aquele que a
Dona Maria Eugênia usou no dia do desfile...
– Ah, é? Que bom, podemos usar ao mesmo tempo! Será que eu fico bem de calcinha?
– Bobão. Modelo igual, não o tamanho. Vai dormir, vai.
– Vou sim. Com o Darcy.
– ARGH! Tchau!
– Beijo, querida.
– Outro.
Ciúme do Darcy. Era o que me faltava. Mas o telefonema me fez relaxar e até consegui esquecer um pouco que estava em território hostil (um hotel! Meu DEUS!). Ela me faz muito bem, às vezes.



